O rapto da boceta de veludo – Capítulo II

27/03/2017 07:04:44

Flavio Sousa


Preocupadas com a bocetinha, as irmãs começaram a mancomunar um plano para tapear o velho Rufino. Lucinha continuava boiando, perdida feito uma barata-tonta. A coitada estava quase se mijando, só de pensar na mão pesada do pai e na vara de marmelo. Leopoldina pisava o refeitório inteiro ? por segurança todos do colégio foram colocados lá ? atrás de uma saída, caso o pai descobrisse que a valiosa boceta tinha ido para o beleléu. A frieza da irmã assustava Lucinha, que não conseguia pensar e fazia cara de tromba. Irritada, a outra, bufa:

— Escuta aqui, sua sonsa, não adianta ficar aí chorando o leite derramado; precisamos é de uma solução, ou o papai estripa a gente viva!!!

— Para! Tô com medo, tô com muito medo, mana! Papai vai matar a gente quando souber o que houve.

— E pensa que não sei, sua lambisgoia? O negócio é que não adianta lamentar. Levaram o Chico, agora já era. Temos que achar um jeito com ele pra descobri onde está a boceta. E fica calma, ou vou te dá uns tabefes. Já estás me irritando, imprestável.

A outra ficou arrasada com as ofensas da irmã e, pela primeira vez, desejou a morte Leopoldina. Queria matá-la como o pai matava as galinhas do domingo: dependurada, de cabeça pra baixo, escorrendo sangue pela cabeça e ouvidos. Quando deu por si, ficou ruborizada. Nunca desejou a morte da maninha querida. Tinham suas diferenças, mas no fundo, se amavam. Pediu perdão pra Nossa Senhora, beijou a medalhinha de São Bento que trazia no peito e rezou por clemência.

A notícia da prisão de Chico Ferradura percorreu a cidade toda. O rádio anunciava a captura do bandidinho. O pai das moças, seu Rufino, conhecia o garoto desde pequeno; gostava dele. Na verdade, tratava o cabra quase como um filho, mas sabia da má reputação dele. As meninas também e, mesmo sob todos os avisos para se manterem longe daquela inhaca de gente, se aliaram a ele para fazer pequenas traquinagens e entregar a ele, de mão beijada, a preciosa boceta.

No fim da tarde, quando todos voltaram pra casa, a cara das pequenas era de velório. O pai nem desconfiou que a boceta das filhas estivesse em jogo. Talvez ficaram assustadas com a invasão da escola e todo resto, pensava o velho Rufinão. Pra quebrar o silêncio, emendou:

— Sei que foi um dia difícil, mas o Chico nunca foi boa gente, por mais que fora próximo da família, entende? Rezei demais pra Nossa Senhora proteger as duas lá na escola. Já pensou se sai um tiroteio? — As meninas responderam apenas acenando com a cabeça. — Agora vão pro quarto e descansem. Uma última coisa: guardaram bem a bocetinha? Está tudo em ordem? — Lucinha ficou roxa e levou uma cotovelada da irmã que saltou para responder:

— Claro que sim, papai, por que não estaria? — Dizendo isso, abraçou o velho e empurrou a irmã para escada acima, rumando para o quarto.

— Então está bem; vão deitar que amanhã é um novo dia.

No quarto, Leopoldina esbofeteia a irmã e inicia a contenda:

— Vagabunda! Quase que entrega a gente!!! Você é um fardo mesmo, um peso morto. Nem parece a mais velha. Olha a cagada que você ia fazendo, com aquela cara roxa e esse olhar de cão de rua. Faça-me o favor, menina, acorda!!! Se ficar dando bandeira assim, logo vão descobrir sobre a boceta.

— Desculpa... — Disse enxugando as lágrimas. — Não faço mais, prometo, por Jesus Cristinho, não faço mais.

— Vaca, arruma sua cama e desparece da minha vista!

 

                                  

 

 

O flagra!

Na sala, seu Rufino chorava, com uma fotografia nas mãos. Pensava em coisas que não deveria, pois ficava envergonhado de sentir aquelas emoções sujas, mas que faziam seu corpo velho e já delapidado pelo tempo, estremecer. Era como um frio que percorria a espinha e abarcava o traseiro, com força; enquanto um calor sem tamanho lhe aquecia as partes e lhe dava espasmos violentos nas bolas... Há muito sentia isso, há muito era desejoso daquilo que tanto consumia sua alma em madrugadas longas e insones. Ah, como era bom imaginar que estava perto de ter o que queria, como estava perto de beber, pela primeira vez, o néctar doce e viscoso que ansiava calorosamente, como um vampiro saliva por sangue puro. Suas partes se agitavam e o velho se torcia no sofá, enquanto apertava as calças e a fotografia. Uma lágrima lhe escorria livre pelo rosto. Estava abatido, pois, seus desejos, devido aos acontecimentos recentes, talvez nunca mais fossem atendidos. Essa ideia destruía seu íntimo e rasgava lhe o peito.

Leopoldina, esperta, esperou a irmã apagar e foi ver o que o pai fazia acordado até aquela hora da madrugada, logo ele que sempre ia cedo pra cama. Estava preocupada, afinal, ele poderia estar a procura da bocetinha, mas não era esse o caso. Da escada, viu que o velho tomava um litro de 51 barato, enquanto observava uma fotografia velha, meio encardida. Ficou curiosíssima e foi, pé-ante-pé, se aproximando pra entender o caso. A menina acabou flagrando uma cena bisonha: seu Rufino espancava o palhaço sem dó nem piedade! Arrancou o bichão pra fora e se esbaldava... A menina ficou horrorizada, nunca vira o pai nem sem camisa, mas daquele jeito também era vergonha demais. Voltou pra escada, mas a curiosidade não deixou que ela se movesse e esperou que terminasse a libidinagem.  

Meio bêbado e com as calças arreadas, o velho saiu entornando o livro de 51 e rumou pro banheiro. A menina foi até o sofá, para procurar a fotografia. Aí é que o susto foi maior ainda!!! A foto era de Chico Ferradura!!! Ficou sem cor, pasma! Não estava entendendo mais nada!!!

Continua...  



Flavio Sousa, jornalista do Sistema Clube de Comunicação, escreve esta coluna às segundas. É cronista dos blogs: Jornalismo de Boteco; Literatura Amarga e De Passagem. Também é repórter da rádio Clube AM 770. É autor do livro "Crônicas Devassas", publicado pela Editora Madrepérola.