Emoções: transitando entre o sentir e o não sentir

02/04/2019 15:44:57

Esequias Caetano | [email protected]


A britânica Jo Cameron, de 71 anos, possui uma mutação genética que a faz não sentir dor – de nenhum tipo! Ela passou por experiências como uma cirurgia na mão, o parto, uma lesão séria no quadril e várias outras sem experimentar qualquer dor. Não é raro ela se queimar enquanto cozinha e perceber o que está acontecendo apenas quando a pele começa a ter cheiro de queimada – e sem dor!

Já ouvi muitas pessoas dizendo que gostariam de ser assim:  não sentir dor. Em geral, a ideia é de que sofreriam menos se isso acontecesse, e assim, a vida seria mais fácil. É compreensível, já que poucos realmente gostam de sofrer. Existem muitas pessoas que vivenciam a dor de maneira crônica, como pacientes com alguns tipos câncer, com fibromialgia, artrite reumatoide, entre outros problemas que de fato podem levar a dores tão intensas que beiram o insuportável. Um pouco mais distante dos extremos, é absolutamente compreensível que mesmo quem experimenta “apenas” dores passageiras realmente deseje não passar por isso. Em geral, buscar pela dor não é um bom sinal. Tentar evita-la é natural e desejável, em incontáveis casos.  E ainda assim, não sentir dor pode ser um problema.

A dor pode ser entendida como um alarme de nosso corpo, que nos avisa de que alguma coisa está errada lá dentro. Sem esse alarme simplesmente não perceberíamos problemas graves pelos quais o corpo poderia estar passando. É a dor que nos avisa, por exemplo, que pode haver uma lesão, um problema cardíaco, um tumor, uma infecção... problemas que se agravariam se não forem tratados.

Com as emoções é bem parecido. A maioria das pessoas com quem converso dizem que gostariam de não sentir emoções desagradáveis, como medo, raiva, tristeza, saudade, ciúme... e que sem estas emoções, seriam felizes. De fato, qualquer emoção experimentada de maneira desregulada pode se tornar um problema. Uma emoção desregulada é aquela que aparece com extrema facilidade, de maneira exageradamente intensa e que demora muito a passar. Ela interfere de maneira importante em nossos pensamentos, em nossa capacidade de atingir objetivos, de controlar comportamentos impulsivos e manter a atenção naquilo que é importante para nós, sem falar no desconforto fisiológico intenso que pode estar associado. Muitos dos transtornos psiquiátricos são exemplos disso.  E do outro lado, não experimentar emoções também pode ser bastante problemático.

São as emoções que:

# Nos comunicam sobre a experiência

Elas nos informam sobre como as experiências estão nos afetando. Por exemplo, a raiva é uma emoção que costuma aparecer quando nós, algo ou alguém importante para nós está sendo atacado ou quando objetivos importantes estão sendo bloqueados. A tristeza costuma surgir quando não temos acesso a algo que é importante para nós.  Não experimentar a emoção ou não a reconhecer nos impede de “coletar” informações importantes sobre o que estamos vivendo. Pessoas que inibem a raiva mais frequentemente passam por situações abusivas, por exemplo. Pessoas que não sentem o medo se colocam em risco desnecessariamente e assim por diante: cada emoção comunica algo sobre a experiência.

Naturalmente, nem sempre a mensagem “enviada” pela emoção deve ser vista como um fato. Assim como ocorre com o alarme de uma casa, o alarme emocional também pode disparar sem que algo realmente esteja acontecendo. É o que ocorre em diversos transtornos emocionais, como o Pânico. Pessoas com Pânico sentem um medo intenso de estarem com algum transtorno grave diante de situações normais, como uma taquicardia (coração acelerado) leve. É preciso entender a mensagem e checar se é coerente ou não coerente com os fatos.

# Motivam para a ação

Uma segunda função das emoções é motivar a ação. Quando estamos com raiva nos sentimos propensos a contra-atacar física, verbal e mentalmente, de modo a eliminar aquilo que está nos agredindo. O medo nos deixa propensos a evitarmos uma situação, de modo as nos protegermos. Cada emoção evoca um conjunto específico de tendências de ação, além de organizar nossos pensamentos, memória e outras cognições. Lembre-se, por exemplo, de quando você se irrita. Que tipo de pensamento passa pela cabeça? E quando está com ciúme?

# Comunicar aos outros

A terceira função das emoções é comunicar aos outros. É fácil compreender isso se nos lembrarmos, por exemplo, que pessoas que comunicam incômodo sorrindo (expressão coerente com a felicidade) menos provavelmente são levadas a sério em comparação às pessoas que fazem isso com uma expressão fechada (coerente com a raiva).

Sentir emoções, tanto as agradáveis quanto as desagradáveis, é apenas parte do funcionamento natural humano. Ao contrário do que muitos acreditam, emoções não são sinais de força ou fraqueza. De fato, pode ser bastante desconfortável experimentar algumas emoções e isso é natural, uma vez que a vida também possui momentos confortáveis e desconfortáveis. Julgar uma emoção como força ou fraqueza apenas impede que ela seja compreendida. Em lugar de julgar, pode ser mais útil aprender a lidar com ela de maneira saudável. Se estiver difícil para você, procure pela ajuda de um bom psicólogo!



Psicólogo, especialista em Psicologia Clínica com Treinamento Intensivo em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech | A Linehan Institute Training Company. Fala sobre emoções, comportamento e cultura.