O que a história da Boneca Momo nos diz?

20/03/2019 14:58:18

Esequias Caetano | [email protected]


Nos últimos dias pais, mães e professores brasileiros ficaram em estado de alerta por causa dos boatos sobre a boneca Momo, que segundo relatos na internet e em correntes no WhatsApp, aparece em vídeos de canais infantis no Youtube estimulando comportamentos de violência da criança contra si própria e contra seus pais. Diversos jornais brasileiros noticiaram a situação, quase sempre enfatizando que embora tenham tentado, não encontraram nenhum vídeo com as inserções do personagem. Além disso, o Google e o Youtube lançaram notas de esclarecimento dizendo que também não encontraram vídeos em que o personagem aparece. E embora a falta de confirmação levante suspeitas sobre a veracidade dos relatos, a história lança luz sobre aspectos importantes da relação entre as crianças, a internet e seus pais.

                                                         Imagem-Fonte: Gazeta do Povo

O primeiro aspecto é a necessidade de os pais supervisionarem o conteúdo a que às crianças tem acesso online. É provável que maioria dos pais não faz isso de maneira rotineira, seja porque não encontram tempo, porque estão cansados quando estão em casa ou porque simplesmente não se preocupam em monitorar. Consequentemente, estas crianças estão vulneráveis a todo tipo de risco – desde a boneca momo até perigos sobre os quais não há dúvidas sobre o quanto são reais, como pedofilia, exposição a violência, tráfico de crianças, exposição prolongada a jogos de computador ou exposição a nudez, apenas para citar alguns exemplos. Obviamente a criança exposta a estas situações sofrerá as consequências mais tarde.

O segundo aspecto é sobre o método da supervisão. Muitos pais até tentam controlar aquilo a que a criança tem acesso – e fracassam. Fracassam por um conjunto muito simples de motivos:

# Muitas das crianças de hoje em dia dominam a tecnologia melhor do que seus pais;

# É possível que a criança tenha acesso a conteúdo inadequado para sua idade fora de casa e, obviamente, os pais sequer fiquem sabendo;

# O estilo de monitoria adotado pelos pais gera mais distanciamento do que comunicação.

Então, há alternativa?

Na verdade, várias. Existem diversos aplicativos e programas de computador especialmente desenvolvidos para controlar o conteúdo a que crianças tem acesso. Uma rápida pesquisa no Google pode revelar muitos deles. Ainda assim, sou partidário da construção de uma relação de diálogo em que duas coisas sejam possíveis:

# Os pais orientarem os filhos sobre como agirem quando expostos aquele conteúdo inadequado para sua idade e os filhos realmente levarem estas orientações em consideração;

# Os filhos se sentirem confortáveis para procurarem os pais quando expostas a esse tipo de conteúdo, quando se sentirem assustados, pressionados ou desconfortáveis em qualquer medida diante de alguma coisa e os pais serem capazes de acolher e orientar;

É claro que construir um relacionamento assim não é fácil, e para muitos, pode parecer fantasiosa a possibilidade de ter uma comunicação fluida com os filhos. Muitos pais possuem experiências diametralmente opostas: simplesmente não encontram abertura para conversar com os filhos. Isso acontece porque a criação de um canal aberto de comunicação em que os filhos realmente ouçam os pais leva tempo, exige dedicação e pode demandar de recursos diferentes daqueles que esses pais conheceram quando eles próprios eram crianças. Mas então, o que fazer?

A ideia é gerar na criança a vontade de estar por perto e conversar. Atitudes como brincar com ela, ouvir atentamente o que ela tem a dizer e comentar amorosamente, passar um tempo com ela, validar suas emoções, demonstrar interesse e ajudar em ao menos algumas das coisas que a criança deseja fazer, perguntar à criança sobre como ela se sente e ensiná-la a dar nome a emoção quando ela não souber podem contribuir bastante¹. Claro, tudo isso precisa ser combinado com estratégias efetivas para lidar com comportamentos de oposição, birra ou outros comportamentos indesejados da criança – tema que foge ao escopo deste texto.

De toda forma, muitos pais podem não conseguir aplicar estas possibilidades ou outras que façam sentido para eles por uma série de razões – que em geral, são bastante verdadeiras. Isso não significa, em hipótese alguma, que não sejam bons pais. Acusá-los disso seria irresponsável e violento, além de não ajudar em nada a se tornarem mais hábeis na construção de um relacionamento aberto e de diálogo com os filhos. Realmente acredito que estes pais fazem o melhor que podem. Não conseguir estabelecer uma boa comunicação com os filhos significa apenas que estes pais não sabem COMO fazer isso – e com algumas crianças realmente pode ser muito mais difícil do que com outras. A boa notícia é que existem alternativas. Uma boa orientação de pais com um terapeuta infantil pode contribuir bastante para a melhoria do relacionamento com os filhos.

¹. Falei mais sobre a criação de relacionamentos profundos nos textos “Aceitação: o caminho para relacionamentos saudáveis” e “O quão profunda é a comunicação em seus relacionamentos? ”, aqui mesmo no Clube Notícia.

² - Evite compartilhar correntes alarmistas nas redes sociais. No caso da Boneca Momo, as mensagens compartilhadas pelos próprios pais podem estar contribuindo para o problema. Veja aqui.



Psicólogo, especialista em Psicologia Clínica com Treinamento Intensivo em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech | A Linehan Institute Training Company. Fala sobre emoções, comportamento e cultura.