Momento de fuga

09/04/2018 12:46:39

Bruno Vieira



Caminhava de um lado para outro, dizia que isso o ajudava a pensar melhor nas coisas. Estava quase na hora de ir ao trabalho e embora fizesse disso sua missa estava descontente porque mal conseguia pagar as contas, alimentava três bocas fora a sua e Joana estava grávida do terceiro filho, a vida é cara. Esforçava-se em organizar seus pensamentos para resolver essas pendências financeiras e mal sabia por onde começar.

 

Há tantas pessoas que pedem aumento salarial, mas Geraldo insistia que nunca faria isso: o patrão vai aumentar para mim quando vir que mereço, meu esforço irá mostrar isso a ele. Estava na hora de ir para o trabalho colocou o cigarro no bolso da camisa, como era terça feira usou a camisa cinza sujava menos, colocou o chapéu de palha, calça jeans e botina completavam o singelo uniforme. Àquela hora da manhã e o sol já estava escaldante, contudo se sentia motivado por dar ao patrão outra mostra que merecia um aumento salarial, ainda mais agora que a família aumentou. Mas ele tinha que perceber isso, não contamos nossas vidas aos outros, tem muita gente ruim.

 

Foram litros e litros de suor, eficácia, rapidez em seu trabalho e nada fez com que o patrão aumentasse seu salário. Como revoltar? Ele deve estar certo em não aumentar para mim, não posso reclamar porque ele paga em dia, e nós precisamos muito do dinheiro para criar essa nova pessoinha que está ai: disse passando a mão na barriga da esposa.

 

Lúcio, filho mais velho de seu Geraldo, bom menino, sempre brincando ajudando a mãe, dizia-se muito de suas notas na escola, e aquele sorriso? Tão satisfeito era, muito educado. Era como se tivesse a melhor vida do mundo, ele brincava tanto e dava gargalhadas puras e simples como a vida que levava. Não tinha tipos de brinquedo para ele, qualquer coisa servia, como era bom vê-lo se divertir. Geraldo tinha um orgulho enorme de sua família e era o grande herói de Lúcio, não havia um dia sequer que Lúcio não o esperava no portão de casa, e o recebia sempre com o mesmo abraço. Geraldo fazia questão de levantá-lo e colocá-lo no banco da bicicleta. Nesses momentos ele esquecia que a vida era cara, como dizia sempre, por incrível que pareça ele sorria junto ao filho que contagiava tudo a sua volta e ao percorrer aqueles 20 metros guiando o filho seu Geraldo era livre.



Bruno Vieira, 26 anos, professor de português o ensino básico concluiu o curso de LETRAS do UNIPAM. Amante alucinado da literatura, que inventa escrever algumas coisas, sonha em escrever algo que fique como herança e esperança. Apaixonado por futebol e é como Nietzsche alguém que vê a música como algo vital para o humano.