Sorriso de sol

02/02/2018 15:14:27

Bruno Vieira


Devido ao cansaço acordei mais tarde do que o comum naquela sexta-feira e a primeira imagem que me veio à cabeça foi a sua. Eu tinha medo de perdê-lo como uma criança sente pavor ao olhar ao seu redor e não ver o rosto de sua mãe. Fui ao seu quarto como de costume para conferir se repousava em sua cama e só encontrei seu velho e preto chinelo ao lado da cama as roupas que usava para ficar a vontade estavam dobradas em sua cama como o roteiro mandava.

Pragmático, você saiu cedo e deixara o celular em cima do criado, na insistência de que não precisava de cuidados, pois sempre carregara tudo em suas costas. E embora eu quisesse dividir com você o fardo de todo o mundo eu era criação sua e no legado que fazia brilhar seus olhos sua filosofia insistia para que cuidasse também de mim. Aquele era para ser mais um dia comum, mas eu insistia muito na ideia de que algo diferente se fazia naquela atmosfera silenciosa de nossa casa. Já eram dez da manhã e o tempo que utilizava para cumprir com suas rotinas diárias já havia esgotado e meus batimentos cardíacos aumentaram de forma que eu afastava de mim toda a racionalidade e comecei a me questionar qual eram seus motivos da demora.

Cumprindo com minhas obrigações pouca atenção eu dava ao que fazia e para conter a minha angústia liguei o som e Oswaldo Montenegro cantava Bandolins música cuja harmonia o senhor amava e eu ficava satisfeito só de vê-lo ouvir aquela canção. Atrapalhando a paz que eu buscava ouvi minhas vizinhas discutindo que não aguentavam mais ter de ceder à vontade de sua mãe e se privar das coisas que gostava de fazer: “Não é minha culpa o rumo que nossas vidas tomaram”. Voltei minha atenção ao som que saia do meu rádio, os jornalistas agora discutiam as obrigações de termos relações descartáveis para nosso “network”. O especialista dizia que temos realmente que fingir que nos importamos com os outros em nosso ramo de trabalho, inteligência emocional é isso, afirmava.

Tudo me tomou a atenção me fez esquecer por algum tempo que você ainda estava por ai e agora perto de onze horas da manhã que segundo você era o horário oficial de almoço. Fui ao portão de nossa casa e a cachorra que era cuidada por dona Sandra tinha finalmente dado à luz a sete fofuras das quais me aproximei para ver melhor. Sorridente, voltei meu olhar para a mãe dos cãezinhos e perdi o riso ao ver que ela estava com o olhar bem triste, tremia muito e pareceu-me claro que não resistiria às dores que sentiu no parto. Contudo, ela acarinhava orgulhosa a seus filhos, e enquanto ia se desfazendo em dores os filhotes devolviam os afagos com entusiasmo de quem realmente importa. Voltei para casa e em meu quarto fui à janela distrair-me com as nuvens que se formavam e eu pensei em quanta chuva cairia. Olhando a mangueira no quintal de seu Geraldo, a luz forte do sol voltou a brilhar e ouvi a chave destrancar o portão. E mesmo cansado ao entrar foi abordado por pretinha, nossa cachorra, e nesse momento meu coração se acalmou, pois você trazia seu melhor sorriso e meu medo se justificou porque sem o brilho que havia em ti o céu escureceria e seria difícil encontrar um caminho para seguir.



Bruno Vieira, 26 anos, professor de português o ensino básico concluiu o curso de LETRAS do UNIPAM. Amante alucinado da literatura, que inventa escrever algumas coisas, sonha em escrever algo que fique como herança e esperança. Apaixonado por futebol e é como Nietzsche alguém que vê a música como algo vital para o humano.