Sobre as oportunidades

27/12/2017 17:32:42

Bruno Vieira


A vida sempre nos reserva algumas surpresas engraçadas, comentou Daniel. Quando eu tinha dezesseis anos, ainda no ensino médio conheci uma garota, Fernanda, seu nome, que era um espetáculo, e como costumávamos dizer naquela época, foi amor à primeira vista, pelo menos de minha parte. Digo isso já que não sei que diabos essa moça viu em mim, mas nada que eu fazia era suficiente para ultrapassar a barreira da amizade. Ela vivia dizendo que me amava, mas como amigo. Eu morria de raiva disso, e sofria mais ainda quando ela infernizava a minha vida com algumas situações. Parou, como era de costume, ajeitou o corpo no banquinho que costumeiramente sentava na calçada de sua casa, ajeitou o boné, passou a mão pela barba com aquele jeitão exagerado, se inclinou para frente para concentrar-se no que ia dizer, e conforme ia dizendo gesticulava proporcionalmente.

Como eu estava te contando, Fernanda, me infernizava de muitas formas diferentes. Primeiro ao me pedir conselhos sobre os caras com quem flertava, segundo por que me ligava três horas da manhã chorando decepções que sofria com esses idiotas com quem saia. E não me olhe com essa cara, não pense que os chamo de idiotas por ciúmes, o faço porque ela tinha um perfil bem específico dos indivíduos por quem babava, ficava com aqueles olhos castanhos vidrados nos babacas que espancavam os meninos menores no recreio. Além desse tipo de postura, eles eram aqueles que tinham uma mania sofisticada de fazer uma espécie de rasgo nas mangas de suas camisetas escolares com intenções de mostrar os músculos que não tinham. Sempre saiam da escola antes do ano terminar por serem expulsos, ou suspensos muitas vezes e desistiam de continuar.

Mas o que mais me irritava neles, era a maneira como tratavam Fernanda. E quanto menos educados os nobres rapazes eram, mais ela queria ficar perto, era a maneira que ela encontrava de se encaixar nos mundos deles. E não pense você que estou colocando a Fê, como um anjinho qualquer, o plural que usei nas sentenças acima demonstra que foram muitos os flertes que ela tinha na escola. Não obstante de certa forma eu não me importava, eu queria ser um dos flertes dela. Não eu também não era o rapaz que queria namorar, só queria experimentar Fernanda, beijar sua boca de lábios finos e bem delineados. Minha intenção era prazer somente, mas nem isso consegui com aquela danada. Ela falava tanto naqueles caras que eu não tive tantas oportunidades de falar com ela as minhas intenções nobres.

Não me esqueço de um episódio que eu reconheço o enorme erro que tive com Fê. Ela foi a minha casa uma vez, durante a noite, chorar porque tinha saído com um rapaz com quem namorava na época e ele simplesmente terminou com ela sem maiores explicações, e você sabe como as mulheres são quando essas coisas acontecem. Nessa noite ela já chegou entrando em minha casa e eu nem por um minuto pensava que receberia sua visita, e fui pego com as calças nas mãos, literalmente. Tinha acabado de sair do banho e o trouxa que lhe conta essa história esqueceu a toalha em cima da cama, então coloquei o short na frente do meu instrumento e fui para meu quarto. Quando lá chego, fecho a porta e me viro de volta, Fernanda, me olhava com o rosto vermelho e começou a dar risada.

Depois do pulo que dei, pedi licença, e sai, troquei de roupa e voltei. Esse episódio foi legal porque fez com que ela parasse de chorar, pelo menos por uns minutos. Voltou a fazê-lo quando me contou toda a história. Mas nesse dia ela estava diferente, e me olhava com mais interesse, digamos. Estávamos sozinhos em minha casa e enquanto ela jorrava suas lágrimas e seus lamentos, deitou no meu colo. Aproveitei acariciando seu cabelo e seu rosto e acabou rolando um clima. Pensei que estava ganhando a garota, já estava para atacá-la dizendo que aquele cara nunca a mereceu, e que eu sim, poderia fazê-la feliz, o celular dela tocou, era o indivíduo sarnento com quem Fernanda namorava, e fugindo de meus braços ela saiu correndo da casa, e eu revoltado nem consegui falar um “até mais”. Por essas e outras, Zezinho, que eu te digo, não perca as oportunidades que a vida lhe dá, pode ser que não terá outras, ou pode ser que você não tenha nenhuma porque você é muito feio. E depois de muitas risadas Daniel disse que tinha que entrar para assistir TV, e assim o fez.



Bruno Vieira, 26 anos, professor de português o ensino básico concluiu o curso de LETRAS do UNIPAM. Amante alucinado da literatura, que inventa escrever algumas coisas, sonha em escrever algo que fique como herança e esperança. Apaixonado por futebol e é como Nietzsche alguém que vê a música como algo vital para o humano.