IMPOSTURA

07/12/2017 13:57:40

Bruno Vieira


Caminhava rapidamente pela rua suando muito devido ao forte calor, mas seguia rumo ao escritório em que iria fazer uma entrevista de emprego, cuja oportunidade ele esperava por muito tempo. Sempre enviou currículo a esta empresa e soube de outras pessoas que nesse estabelecimento ofereciam as melhores condições para o funcionário. Vale alimentação, vale transporte, plano de saúde, oportunidades de crescimento, enfim eram muitas as vantagens de se trabalhar na Codema. Mateus estava certo que o salário era compatível com o de outras indústrias, mas se animava quanto a esses benefícios. Dividida em vários departamentos, a empresa nesse processo seletivo que Mateus participou analisava currículos para vagas oferecidas em três áreas: vendedor, controlador e auxiliar administrativo.

O rapaz foi chamado para concorrer a vaga de trabalho na área de controladoria. Sentiu-se valorizado por ser convocado para possivelmente trabalhar em uma parte tão vital para a empresa. Precavido como era Mateus que ainda não tinha total conhecimento acerca das atividades que um controlador desenvolve, procurou se informar pela internet a quais atribuições cumpriria. De imediato achou que os termos eram técnicos demais, mas que ele em pouco tempo aprenderia tudo que fosse necessário. Jovem de 23 anos, ele era um rapaz com inteligência mediana, mas se destacava pela sua curiosidade. Instruía-se sobre praticamente tudo que estava ao seu alcance, era perspicaz nas suas buscas e a internet tinha para ele utilidade prática. Embora não tivesse dinheiro para fazer cursos técnicos, tinha em seu conhecimento de mundo informações que obtia graças ao acesso a sites especializados, vídeo aulas e não tinha pudor ao buscar conhecimentos e técnicas variadas.

Mateus era preparado para assumir várias funções dentro de qualquer empresa de médio porte pela sua formação complementar, esta que esta além dos cursos pagos ou das faculdades. Ele não menosprezava esse tipo de conhecimento e estava em busca deles, segundo o gabarito do ENEM tinha se saído muito bem na prova e contava com alguma bolsa de estudos. Seus planos estavam subjulgados a essa vaga de emprego que agora buscava. No caminho pensava em concorrentes, acreditava que devido a crise empregatícia muitas pessoas disputariam essa vaga com ele. Voltou seu pensamento para si mesmo, estava bem vestido: camisa gola polo branca; calça jeans clara e tênis novo de cor preta com detalhes verde florescente. Colocou o relógio que havia ganhado de aniversário, pois demonstra responsabilidade e assiduidade, dizia. Depois conferir a vestimenta tentava simular as perguntas que seriam feitas bem como uma breve apresentação pessoal típica em entrevistas. Tom de voz, simpatia, firmeza, confiança, eram todas essas questões conhecidas por Mateus, que embora confiante estava aflito já que o momento da entrevista estava mais perto. Tentou distrair-se pensando em outras coisas quando olhou pela janela do ônibus e viu que passava em frente ao muro que cercava a empresa. Desceu e caminhou até a portaria onde trinta pessoas já sentadas próximas a ele aguardavam o momento de serem chamadas para os processos. Mateus ficou desconfortável ao ver tantas pessoas, mesmo que já esperasse por isso.

O processo que correspondia à vaga pela qual ele foi chamado foi o último a acontecer e já anoitecia. Pessoas saiam e chegavam a Codema devido as trocas de turnos, e ele já estava cansado, mas decidiu que esperaria até o final, essa vaga tinha de ser dele. Completamente entediado aguardava e já via com certa preocupação a demora em começar a entrevista para a controladoria. Somente aguardavam com ele agora mais nove pessoas contando com ele. Era oito e meia quando chegou um rapaz extremamente bem vestido conversando pelo celular em voz alta que cumprimentou Aline, a secretária do segundo turno da empresa, Mateus viu que ela, sorridente, pegou a ficha de concorrentes e assinou alguma coisa. Então esse rapaz se sentou ao lado de Mateus e continuou sua conversa em alto e bom tom, chamando a atenção de todos. Carregava um envelope e ria-se com o que falava a outra pessoa ele estava completamente descontraído, parecia bem confiante.

Dez minutos após a chegada desse cavalheiro a secretária chamou-o para ser o primeiro entrevistado, o que é claro, contou com a indignação muda de todos, principalmente de Mateus. Calados e frustrados esperaram mais 20 minutos até que a entrevista com aquele rapaz terminou e ele após uma conversa mais próxima com Aline foi embora. A moça sem explicações ou qualquer reação ao que estava acontecendo entrou de novo para sua sala. Matheus viu que as entrevistas posteriores duravam somente sete minutos em média, e os participantes saiam com cara de preocupação. Enfim chegou a vez dele que tentou ainda demonstrar todas as suas habilidades que adquirira ao longo do tempo participou como se nada de estranho tivesse acontecido, Agradeceu a oportunidade e saiu. Resolveu que iria voltar para sua casa a pé mesmo que fosse longe, e apesar do andar apressado, seus ombros curvados denunciavam que ele sabia o que havia acontecido ali.  

 

 



Bruno Vieira, 26 anos, professor de português o ensino básico concluiu o curso de LETRAS do UNIPAM. Amante alucinado da literatura, que inventa escrever algumas coisas, sonha em escrever algo que fique como herança e esperança. Apaixonado por futebol e é como Nietzsche alguém que vê a música como algo vital para o humano.