Um puteiro de família em Patos de Minas

04/12/2017 08:40:10

Flavio Sousa


Por pouco não perdeu o ônibus; o que seria uma tremenda má sorte. Nos dias de chuva a condução é mais lotada que o de costume e provavelmente se atrasaria mais que o normal. Naquele dia não: pontualmente meio dia o “rota 2” — linha que corta a cidade, saindo do bairro Alvorada até o Distrito Industrial — chegou na hora. De longe um rapaz magro acenou pedindo para que o motorista o esperasse. “Espera aí, motor”, berrou uma passageira de voz cheia, quase mafiosa e que aparentava ter uns 20 e poucos anos. Num solavanco que abalou todos os passageiros, o arranque foi interrompido. Entrou esbaforido, a longa cabeleira toda esganiçada.

Quando finalmente conseguiu atravessar a catraca, olhou de um lado para outro e se sentou do meu lado. Já com a respiração estabelecida, me pediu ajuda. Vinha de Saboeiro, Sertão de Inhamuns, no Ceará, não conhecia a cidade, queria me explicar aonde precisava ir, mas era todo atrapalhado com as palavras. No entanto, havia algo diferente. Mais que uma informação trivial, carregava consigo um vago pedido de atenção, misturado de certo desamparo. Num primeiro momento, colaborei. Procurava o Mercado Municipal. Disse que estava com sorte, que aquele ônibus pararia bem na porta. Teria ficado por isso mesmo, não fosse ele um falador, de olhar esperto e malandro. No pós-almoço não sou o sujeito mais agradável do universo; sou possuído por um mau humor virulento. Fui forçado a prestar atenção ao que dizia, mesmo a contragosto.

Depois de alguns minutos de trocas de informações básicas (nome, idade, estado civil) finalmente chegou ao ponto que tanto almejava. Desde o início da conversa notei que o sujeito agia como um terrorista prestes a explodir o lotação com uma bomba caseira. Estava desconfortável, sacolejava pernas e braços agonizantemente. Me contou que estava por essas bandas a mando do pai, que o incumbira de uma missão um tanto obscura e cheia de responsabilidades. E que responsabilidade! Um caso estranho, maluco, que não se ouve por aí todo dia...

A vida humana é mesmo uma bocetinha de pandora abarrotada de segredinhos! Quando se trata de segredos carne, então, nem se fale... Cada de um nós carrega consigo taras, fetiches, desejos que roem o osso e queima a alma com o maçarico do Capeta. E como o Tinhoso sabe atiçar nossas podridões! E era diante de um caso desses que me deparava agora. Até que ponto somos capazes de mover céus e terras em busca do gozo, do prazer viscoso que escorre do meio das pernas? O cabeludo nordestino, de nome Silas, estava à procura de uma prostituta para o pai! Pelos aqui, na nossa querida Patinhos de Minas, a prática não é usual. Pode até ser uma tradição local levar os filhos para perder o cabaço na zona, mas o filho ir atrás de barra de saia pro pai é novidade — pelo menos pra mim! Entretanto, devemos admitir que nesta cidadezinha esquisita é prudente esperar pelo inesperado...

Para ser honesto, apreciava o empenho ingênuo do rapaz naquela missão nebulosa que não deixava de despertar minha curiosidade, disse-lhe que precisava de um pouco mais de informação, para ajudá-lo em sua empreitada... Apesar da vontade de saber um pouco mais sobre o caso, tudo que não queria, naquele momento, era um problema prático miúdo, e pior, não meu. Mas não tinha escapula: teria de orientá-lo para me ver livre do cabra da peste.

   

Aquela era mesmo uma tarde atípica: em plena sexta-feira, meio dia, o ônibus não estava abarrotado de colegiais e se podia até conversar sem elevar a voz, ou disputar vagas no tapa. À medida que o lotação seguia, subiam poucos passageiros, idosos em sua maioria, com roupa de domingo, provavelmente com destino a algum forró das 15h. Continuamos nossa conversa sobre mulheres, putas, puteiros, coisas do prazer. Com entusiasmo ele relata as aventuras do pai no nordeste. Jagunço maldoso, daqueles que matam só pra ver o tombo, acostumado a apartar meninotas pra arrancar o cabaço e cuspir na cara das bichinhas, sem dó nem piedade. “Quando era piá, o pai possuiu uma magricela na raça, na força do sopapo. Pra ele é dá ou morre. Comia quem quisesse; não tem pai, mãe, macho na terra capaz de afrontar o homem”, contou sem nenhum orgulho na voz.  

Cresceu em meio aos urros das cabritinhas sendo defloradas pelo pai, mas não herdou a mesma virilidade e tesão. Silas me confessou que é chibungo ? assim são chamados os gays lá pelos lados do nordeste. O cangaceiro até que tentou dar um jeito no rapaz. Segundo me contou, foi pra cama com mais de cem. Moças, experientes, gordas, magras, bonitas, feias, não adiantou. “Não subiu [o pênis], meu branco; aí não tem jeito. Meu negócio é outro”, disse meio sem graça, como quem confessa um pecado mortal. Não demorou muito pro pai de Silas desconfiar. Mandou Joana-Boca-Funda — marafona conhecida, experiente, boa de sentada — pegar o pivete de jeito, mas não deu certo. A quenga foi lá e dedurou tudo pro jagunço. O rapaz apanhou até ver o coro avermelhar; tomou banho na água de sal três dias e três noites. Insatisfeito com o filho viado, o infeliz condenou o moleque a andar a rua, sem um puto no bolso.  

Desde então já rodou essa terrona chamada Brasil e agora foi desembocar aqui, em Patos de Minas. Antes de cair nesse finzinho de mundo do interior das Gerais, esteve com o pai lá em Saboeiro. O velho está em vias de morte; o jagunço foi consumido pela sífilis. “Cabeçudo, o coisa ruim, não tratou, foi só metendo, agora vai morrer. Isso daí é obra do Diabo, do inimigo”, disse com voz de choro. Apesar de tudo, não odiava o pai. “Não foi bom não, nem pra mim, nem pra mãe”, contou.  Silas não tinha irmãos, ou se teve não os conheceu. Na cidade onde nasceu corre o boato que o pai matou todos os filhos que teve com as raparigas com pedradas na cabeça. Os pobrezinhos mal nasciam e eram açoitados e tinham o crânio esmagado sem dó nem piedade. “Era ruim; um cabra mau”.

Por óbvio, uma pergunta pairava em minha cabeça: por que ajudar um sujeito, que embora fosse seu pai, lhe causou tanta dor e sofrimento? E pior: em assuntos de cama! Abriram mesmo as porteiras do inferno e o mundo está assolado pela desgraça, só pode! Silas não explicou os motivos: amor! Não o dele pelo pai, mas sim de uma dama, supostamente aqui da cidade!!! Sim, uma mulher da vida aqui da terrinha teria arruinado com a vida do pobre e agora moribundo jagunço! A vida é mesmo coisa surpreendente: tudo que manteve vivo aquele sujeito até hoje foi o “o desejo pelas ancas de dona Cidinha”. Silas — hoje rapaz devotado da Igreja Universal, que, aliás, já começou seu próprio processo de cura gay por meio de orações e jejuns — decidiu promover o encontro dos dois. “Sinto que eles precisavam se reencontrar, se perdoarem, tiveram um caso de amor, sabe, essas cosias não podem acabar assim. Deus mostrou que assim ele vai ser curado!”, disse surpreendentemente sem nenhum sotaque!

Não trazia muitas informações sobre a mulher, a dita cortesã que desgraçou a vida do machão do Ceará. Só sabia que a danadinha, atualmente, atendia em um “lupanário de família”.  A informação, num primeiro momento, parecia muito contraditória! Como pode um puteiro ser considerado um lugar de família? Ainda mais nesta santa cidade, abençoada pelos quatro cantos por nosso querido, louvado (amém), Santo Antônio? Só queria que Deus queimasse a língua daquele herege desavergonhado que proferia tamanho disparate! Nossos prostíbulos são templos pagãos da perdição, da luxúria, da promiscuidade! Gente honrada não pisa em solo porco!

Engano total! Por aqui o nível desbunde está além do imaginado! Silas recebeu informações quentíssimas sobre um tal de “39”, lugarzinho conhecido como a casa dos amantes aqui de Patos de Minas. Quem reside aqui na capital do milho já ouviu falar da casa, um lugar feito para o prazer. As raparigas, dizem por aí, não são das melhores, mas com certeza são dotadas de experiência e boas no negócio! O cearense tinha certeza que encontraria dona Cidinha por lá. Chegou a me perguntar se conhecia a tão famosa casa de encontros e se já conhecia os serviços prestados pela distinta senhora. Infelizmente, em matéria de puta sou um completo analfabeto, mas atrás de nós alguém parecia entender das coisas do prazer e dos lupanários...

Um dos velhinhos, com chapelão preto, com calças escuras, botinão de couro (em verde musgoo) e camisa social vermelha interrompeu a conversa. “Eu conheço o lugar lá e nunca vi Cidinha lá não; eu vou direto”, disse com gosto de quem realmente estava disposto a ajudar. Acho que nem notou que falou, em alto e bom tom, que era cliente assíduo de prostíbulo! Não percebeu a mancada...

No entanto, a essa altura, nem eu percebi que os olhares de todos os passageiros pairavam sobre nós três. As conversas sobre sexo ainda são tabu e as pessoas parecem horrorizadas, mas ao mesmo tempo, muito interessadas no que vem depois. O sexo parece estar envolvido em uma capa de mistério que poucos são capazes de retirá-la e tocar-lhes as partes... Quem sabe embaixo dela não dorme uma Pombagira pronta possuir a alma dos pudicos?

Aproximamos-nos do Mercado Municipal, o ônibus contorna o famoso balão Chevrolet e ganha a Rua Major Jerônimo. O velhinho forrozeiro já anuncia que nos aproximamos do local desejado e que em breve estaríamos no Mercado Municipal. A partir deste ponto, fui jogado pra escanteio na conversa e os dois seguiram o papo sem me incluir. Pouco antes de descer, Silas apertou minha mão, agradeceu minha ajuda e se despediu. Quando paramos, ele e o velhinho seguiam em boa prosa. Nunca mais vi nenhum dos dois...

Atrás de mim, duas senhoras rechonchudas comentavam nossa conversa com ar puritano e irritado. “Agora se escuta poca vergonha até ônibus! Onde o mundo vai parar, cumade!?”, disse para a colega que olhou para ela por debaixo das lentes dos óculos e respondeu: “Sei não, mas diz que nesse tal de 39 até os graúdo da cidade conhece”. Desci dois pontos depois com a história na cabeça e uma curiosidade mórbida de visitar o que talvez possa ser o primeiro “Puteiro de família” do Brasil!

FIM...



Flavio Sousa, jornalista do Sistema Clube de Comunicação, escreve esta coluna às segundas. É cronista dos blogs: Jornalismo de Boteco; Literatura Amarga e De Passagem. Também é repórter da rádio Clube AM 770. É autor do livro "Crônicas Devassas", publicado pela Editora Madrepérola.