Tom

23/11/2017 20:45:55

Bruno Vieira


Tom

 

Numa noite de quinta-feira me encontrei com o Tom, um amigo que não via há bastante tempo. Tom era muito especial: conseguia a gigantesca façanha de ser sincero mesmo diante das mais delicadas situações. Durante nossa conversa senti que as atualizações que fazia sobre minha vida não estavam despertando nele a atenção que eu esperava e decidi calar no meio de uma explicação de como eu precisava organizar melhor meu tempo. Quando olhei para ele, percebi que estava com o olhar fixo no movimento da rua em que nos encontramos. Tom estava aéreo e seu semblante parecia indescritivelmente triste. Embora estivesse de noite era perceptível que estava nublado hipótese confirmada com o ar frio que sentia naquela rua.

 

Me espantei, pois aquela expressão de Tom era constante ele permanecia estático como naquele momento em que eu comentava meus infortúnios, seu olhar embora vago transmitia dor. Vestia um uniforme do trabalho, roupa social calça preta camisa branca como manda o manual, estava mais magro, o nariz sempre avermelhado nas épocas de frio, mas seu semblante estranho me impactou, estava mais branco que o normal. Ficamos em silêncio juntos naquela rua por alguns minutos, ele contemplava o nada e eu não conseguia parar de olhar para ele, tentava fazer com que me notasse, tentava fazer com que pudesse confiar em mim e então abaixei a cabeça.

 

Momento em que ele parecia despertar-se do transe e voltou seu olhar para mim, agora com os olhos mais brilhantes, seu rosto franziu-se e as lágrimas caíram, dali a pouco seus gemidos e um choro difícil de mensurar surgiu de sua boca. Tom tinha duas filhas e uma esposa eu me lembrava de vê-los na praça próxima a casa onde moravam de aluguel, pareciam felizes, contudo faz muito tempo, e logo pensei que o motivo daquele desconsolo se relacionava a sua família. Meu amigo estava ali encostado em um belo Ford Fusion estacionado agora com a cabeça baixa chorava alto e eu comecei a me preocupar com ele. Levantou os olhos já vermelhos para mim e disse:

 

___ Sabe meu amigo, eu passei a vida toda procurando seguir os preceitos que meu pai fundamentou em nossa casa como essenciais na vida de um homem. Você me conhece a tantos anos e sabe como eu trabalhei para que as coisas dessem certo para mim e para a minha família. Você se lembra de como eu era dedicado quando trabalhávamos juntos, você sabe de como eu me esforçava para fazer a diferença e muitas das vezes eu fui julgado como ganancioso e egoísta. A verdade, meu caro amigo, é que eu não queria deixar que meu futuro e dos meus dependessem de falhas alheias, e assim, fui correr atrás muitas das vezes motivados pelos conselhos de seu Raul, meu velho pai.

 

Eu me recordo de compartilhar as dificuldades com você e me lembro da sinceridade de seus conselhos, me lembro de quantas vezes você conversava comigo. Eu via que você era capaz de realmente se colocar no lugar do outro e se hoje eu choro na sua frente, saiba que mereceu minha consideração de não me esconder como sempre fiz. Sei que há muito tempo não nos vemos, sei muito bem das correrias diárias que são impostas a nós e encaramos porque nem todos os momentos são passíveis de escolhas, mas eu sinceramente queria te dizer que grandes amigos deixam sua marca conosco e fazem parte de nós.

 

Entendo esse olhar que questiona porque estou dizendo tudo isso e onde quero chegar, acontece, meu nobre amigo, que a exatos dois meses atrás dia 3 de agosto de 2017 eu estava no trabalho quando comecei a sentir dores bem fortes no corpo e consequentemente vomitei sangue nessa mesma camisa branca que estou usando. Dois dias depois eu fui diagnosticado com câncer de pulmão, tão grave que o médico sugeriu que eu passasse o resto de meus meses cumprindo com a minha rotina fazendo as coisas que gosto e que consigo, já que a doença estava em fase terminal. Resolvi continuar trabalhando. Minha esposa, nervosa com a minha escolha foi embora com as meninas, e eu meu caro, só tenho essa droga de emprego e um quarto no qual eu vou passar sozinho os meus últimos dias. Eu pesquisei e percebi que os tratamentos de câncer em nosso país para variar são tão ineficientes como quaisquer outros de doenças mais sérias, embora haja muitos esforços por parte de médicos pesquisadores para que isso mude.

 

O médico que consultei disse que meu tratamento na rede privada inicialmente custaria 300 mil reais dispensados de chances reais de cura. No mesmo dia de minha desgraça maior noticiavam a apreensão de milhões de reais no apartamento em que Geddel Vieira fazia de banco clandestino. Parei para pensar no que eu havia feito de minha vida nos últimos tempos e vi que sempre fui uma marionete e agora somente entraria para mais uma estatística governamental.

Meu amigo com as coisas que lhe disse agora eu espero que não tenha entendido errado o que peço. Não quero que sinta piedade, não quero que me visite ou que peça doações por mim. Peço somente que você como os outros jovens de sua idade escolham as lutas certas.

 

Com essas palavras pegou suas coisas virou ajeitando a roupa e limpando as lágrimas, ergueu a cabeça saiu como nada de importante tivesse dito. Somente nesse momento ao vê-lo se afastar de mim, percebi que ao se misturar com outras pessoas na multidão se parecia tanto com aqueles dois homens que passavam na direção contrária a ele. Dobrou a esquina e sumiu.  



Bruno Vieira, 26 anos, professor de português o ensino básico concluiu o curso de LETRAS do UNIPAM. Amante alucinado da literatura, que inventa escrever algumas coisas, sonha em escrever algo que fique como herança e esperança. Apaixonado por futebol e é como Nietzsche alguém que vê a música como algo vital para o humano.