Fragilidade

09/11/2017 16:34:39

Bruno Vieira


Estava deitado em sua cama, ainda refletindo sobre os acontecimentos da última semana, quiçá, dos últimos três dias. Ainda não conseguia compreender como tudo se fez sem que pudesse controlar ou prever. Mas não havia maneiras de admitir que tudo fora no mínimo estranho. Bem para começar Pedro resolveu a partir de seus últimos estudos filosóficos que iria parar de beber álcool. E isso não podia influenciar sua maneira de se comportar no mundo, vivia dizendo que há maneiras de aproveitar o melhor da vida sem influencias de substancias no organismo, e assim o fez: foi para seu cotidiano massacrante completamente sóbrio.

 

Ele que já era muito conhecido pelas loucuras que fazia em efeito de suas amadas doses de canelinha, se tornou piada ao confessar a seus amigos que havia dado um tempo com a bebida: “quero observar os detalhes do mundo” ele dizia. E claro, seus amigos não acreditavam e vexavam do companheiro impiedosamente. Faziam aposta no insucesso do amigo, riam muito do seu novo intento, mas Pedro que já estava acostumado com as zoeiras dos amigos, não recuava e insistia que iria conseguir. Não, ele não era nenhum alcoólatra daqueles que você encontra jogado ao bar às cinco e meia da manhã, como todo jovem, só curtia muito os efeitos que o álcool tinha e gostava de senti-los.

 

No primeiro dia foi fácil, primeiro por se tratar de segunda feira, início de semana, rotina e toda aquela atmosfera. Acordou cedo, meio indisposto ainda, como era de costume as segundas feiras, mas resistiu a primeira pressão de ficar na cama. Levantou-se já com o cronograma prévio das atividades no trabalho. Pegou a pretinha, era como gostava de chamar sua moto, uma ttian 150 preta, era seu xodó. Sua mãe, dona Lúcia, dizia que ele amor excessivo aquela moto, ria muito dos seus cuidados com o objeto.

 

No caminho para o trabalho, pela rua tabajó, de viseira aberta sentindo aquela brisa da manhã, já era primavera em Patos, ia curtindo o percurso amava andar de moto, e discutia com quem não sentia tal prazer, era impossível alguém não gostar. Entretanto, no cruzamento ainda perto de sua casa, descia um homem, devia ter uns vinte e cinco anos, correndo mesmo com o sinal fechado na rua pela qual descia, e claramente, era óbvia sua intenção de pegar a condução para ir ao trabalho, tinha um uniforme azul e branco, do tipo que se usa em indústrias.

 

O sinal também estava fechado para Pedro, que pode ver a cena daquele rapaz ser jogado na calçada por um carro cinza, era um Monza, modelo antigo fabricado pela Chevrolet, o homem dirigia fumando um cigarro, parecia muito distraído. O motorista só sentiu o impacto de seu carro chocar com o rapaz que também, ou infelizmente, devia estar atrasado, descia na guarani tentando pegar a condução. Mesmo assustado, Pedro, observou e viu que o sinal tinha ficado verde para ele, deu a volta, estacionou a moto, e quando deu por si, uma multidão assim como ele, observavam o rapaz que jazia na calçada, efeito do batida que sofrera, e parecia não resistir a tantas dores.

 

Pedro estranhou-se era impossível não sentir compaixão diante daquele rapaz, que inclusive, devia ter mais ou menos a idade dele, Pedro. Resolveu não esperar a ambulância, e já podia ouvir sua sirene tocar ao longe. Pegou sua moto, e continuou seu trajeto rumo ao trabalho. Ainda na rua, pensava no acidente, e sentia que não podia culpar o rapaz, não sabia de fato como era sua vida e menos ainda, por que tal desespero para pegar a condução. Imaginou que ele tivesse filhos, casado era, conseguiu ver a aliança na mão esquerda que por sinal sangrava.  

 

Pensou inúmeras coisas a respeito da vida daquele rapaz sem sorte, mas afinal concluiu que a vida é assim mesmo: só um detalhe desse gigantesco cosmos, e ultimamente, passava cada vez mais a acreditar que não tínhamos nenhum controle sobre o destino. Havia visto muitas coisas, as pessoas se matam por motivos torpes, mas há pessoas que morrem sem nada terem contribuído para seu fim, há ainda aqueles que lutam muito para conservar o pouco de vida que possam ter, há aqueles que são pegos pelas doenças degenerativas. Pedro refletia muito quando se deu conta de que tinha chegado ao trabalho, desligou a moto e desceu se sentia meio perdido e a vida começava a exigir dele mais do que tinha entregado até agora. Fez o gesto costumeiro ao entrar: ergueu a carteira que continha o cartão de ponto, ao ouvir o bip, entrou e se familiarizou com seus afazeres.




Bruno Vieira, 26 anos, professor de português o ensino básico concluiu o curso de LETRAS do UNIPAM. Amante alucinado da literatura, que inventa escrever algumas coisas, sonha em escrever algo que fique como herança e esperança. Apaixonado por futebol e é como Nietzsche alguém que vê a música como algo vital para o humano.