O prostíbulo da Avenida Getúlio Vargas

18/09/2017 12:36:35

Flavio Sousa


Embora pareça pacata e sem graça, a Avenida Getúlio Vargas esconde sórdidos segredos da carne. O desejo e a perdição exalam de lugares que, a maioria de nós, nem imagina. Em um sábado qualquer, pela manhã, decido passear pelo local e descobrir quais mistérios impudicos se esconde no lugar. O brega de Amado Batista rolava solto no radinho de pilha da servidora responsável pela limpeza dos imundos e fedidos banheiros do Coreto Municipal. O local parece impregnado de uma catinga antiga que, por mais que se lave, nada faz com que o cheiro de urina, fezes e essência de eucalipto, deixe o lugar. Não que dona Tereza, um das faxineiras do lavabo, não dê conta do recado, mas a situação é crítica! O odor desagradável pode ser percebido por pelo menos uns dez metros. É até engraçado: todos que passam por lá cobrem a boca e o nariz e torcem o pescoço na direção contrária, numa clara demonstração de nojo.

Somente os mais apertados, ou os moradores rua usam os mictórios. A construção data de 1985, obviamente carece de uma reforma que não vem há anos. Não é um patrimônio depredado, apenas mal cuidado, tanto por parte do poder público, como por parte dos usuários que ? mesmo tendo a privada a poucos metros ? insistem em fazer as necessidades no chão!

Dona Tereza dá duro pra manter o lugar limpo, mas a maioria dos usuários não contribui para o trabalho dela, infelizmente. “Aqui é assim: eu venho e limpo, dez minutos depois sujo de novo”, explicou enquanto acendia um cigarro. Mulher de idade já avançada, mas que conserva a beleza das mulheres normais, Tereza é do tipo faladeira e sempre dá grossas gargalhadas que podem ser ouvidas por boa parte da Avenida. De cada dez palavras que diz, sete são palavrões. Acima de tudo é esperta: ao notar minha presença, foi direta: "O que ocê quer aqui?". A indagação foi feita sob um olhar de soslaio, como quem diz "já saquei a sua, cara". Foram necessários alguns minutos para conquistar minha anfitriã, mas no fim da história ganhei uma amiga atenciosa e disposta a contar tudo que sabia ? ela sabia muito bem o que procurava naquele cubículo!

No início, fui confundido com um cliente, mas logo ela compreendeu que não estava em busca de prazer; pelo menos não da forma como ela imaginava. Estava em busca do prazer alheio. Constrangida, tentou desconversar, disse não saber de nada, nunca ter escutado aquela conversa. O papo avançou, conquistamos a confiança um do outro e não demorou muito para logo estarmos adentrando na vida alheia. Minhas mãos coçaram de emoção por saber que estava prestes a ter revelados alguns dos segredos sexuais ocultos do Coreto Municipal! Putaria, libertinagem, tudo estava ali, na cachola de dona Tereza.

Sentei-me ao lado dela, na tentativa de me fazer mais próximo e mais amigável, e continuei a perguntar sobre algumas das histórias mais nojentas de pegação nos banheiros de Coreto. Mesmo dizendo tantas sacanagens ? depois me senti culpado por dizer aquele besteirol para uma senhora de idade ? ela soltava mais uma de suas icônicas gargalhadas roucas de fumante inveterada. Essa reação não deixou dúvidas: o Coreto é um lupanário, em plena Avenida Getúlio Vargas, frequentado, em sua maioria, por homens casados com molhados desejos homossexuais.

Os encontros acontecem em plena luz do dia, em qualquer dia da semana. Ironicamente, o dia mais movimentado para as rapinhas é a segunda feira. Fiquei pensando: será alguma forma de obter relaxamento para encarar uma semana que se inicia? Dona Tereza sabe muito bem desses casos, já flagrou alguns, fez vista grossa com outros... As horas avançam e já estamos quase perto do horário de almoço de Dona Tereza; acelero a conversa.

Várias histórias foram narradas, mas uma em particular chama a atenção pelo bizarríssimo ato flagrado por ela. É hora de retirar as crianças da sala; vai começar a baixaria! Tudo aconteceu, pra variar, em uma segunda-feira, sol rachando mamona, duas da tarde. Dois homens, segundo contou a faxineira, deram uns pegas lá dentro. O primeiro deles, alto, moreno, funcionário de uma papelaria entrou dez minutos antes do segundo; esse, por sua vez, chegou engravatado, cara de atrasado e de quem estava louco para tirar a água do joelho. Dona Tereza, do lado de fora, achou estranha a demora do primeiro homem, mais estranho ainda foi a demora dos dois lá dentro. Segundo calculou, eles ficaram lá dentro mais ou menos uns 30 minutos, quando ela finalmente decidiu adentrar (acompanhada de um amigo) no lavabo para descobrir o que ocorria lá dentro. 

A cena foi bizarra! “Foi feia a coisa, menino, o morenão empulecou na cacunda do de gravata e sentava a ripa. Cheguei à porta só escutei os gemidos, olhei assim meio de longe; o resto foi com o Zé [o amigo]. Ele segurava a ponta do gravata do outro numa vontade, rapaz. Cê besta, pensa num trem esquisito”, contou segurando o riso. Não resisti e caí na gargalhada, aí ela emendou e ríamos da situação como duas hienas. O lance da gravata ainda reverbera na minha memória. É impossível não imaginar o sujeito enrabando o outro e puxando a gravata... “Na hora que ele saiu de lá, a testa do moço da papelaria corria bica”, disse dona Tereza.

O amante profissional da Avenida

Enquanto Dona Tereza me divertia com a história, sentado à nossa frente estava um rapaz moreno, de cabelo curto, que, sempre que alguém entrava no banheiro, ele entrava em seguida. Observei aquela cara desde minha chegada. Perguntei a faxineira quem era a figura. “Ah, meu filho, aquele ali é problema puro! Diz que ele faz programa, os homi entra no banheiro, ele entra atrás”, disse minha amiga Tereza. Ninguém sabe ao certo o nome dele.

Enfrento a catinga colossal do banheiro a fim de fazer um teste. Deixei Dona Tereza mexendo em seus tapetes e entro no banheiro. Escuro e extremamente abafado, o lugar lembra uma sauna aromatizada com urina e bosta. O estômago embrulha ? ainda bem que a visita ocorreu antes do almoço, do contrário teria chamado o Juca ali mesmo. Assim como a maioria dos banheiros públicos, o chão está constantemente molhado, uma mistura de urina e água que escorre da pia. Há um sem número de telefones, além de desenhos pornográficos entalhados nas portas. Os mictórios estão entupidos e uma água amarela e fedida retorna do ralo.

Quando estava prestes a desistir do meu plano, eis que o misterioso rapaz surge, como uma sombra atrás de mim! Obviamente me assustei, não é todo dia que alguém chega do nada nos agredindo a retaguarda. Ele tocou no meu ombro e olhei para trás, quando e o vi. Notei imediatamente que não era um sujeito dotado de boa saúde mental. Ele me perguntou se não “estou a fim de um namorado”. Respondo com outra pergunta: quanto custa? A resposta me deixou chocado, de queixo caído no chão sujo do banheiro! “Quero uma coca, você me paga uma?”. Nesta hora declinei do convite e saí do lavabo. Dona Tereza riu da minha cara de assustado. “Ele te cantou lá no banheiro?”, disse rindo debochadamente. Respondi que sim.

Segundo me contou Dona Tereza, ele fica ali, todos os dias, de oito da manhã às cinco da tarde. Tem alguns clientes fixos, homens. Suspeita-se que a maioria é casada, com filhos e tudo mais. Os pais do garoto parecem ter conhecimento da coisa toda, mas nunca houve retaliação. O jovem foi estudante da APAE de Patos de Minas. Despeço-me de Dona Tereza. Não tive coragem de entrevistar o rapaz, seria muita indiscrição com uma pessoa que não é dotada de plenas faculdades mentais.

A visita ao lupanário da avenida mostrou-me que, para o prazer, não tem horário, compromissos marcados, ou medos bobos. O desejo é incontrolável e faz loucuras com homens e mulheres nesta terra! Cada uma dessas histórias são resultados de paixões que queimam a pele e fazer arder e melar cuecas e calcinhas, como se um fogo profano percorresse por cada pelo pubiano e esta chama só se apaga em atrito com outro corpo flamejante! E claro, além disso, também me mostrou que nem tudo é o que parece ser...  



Flavio Sousa, jornalista do Sistema Clube de Comunicação, escreve esta coluna às segundas. É cronista dos blogs: Jornalismo de Boteco; Literatura Amarga e De Passagem. Também é repórter da rádio Clube AM 770. É autor do livro "Crônicas Devassas", publicado pela Editora Madrepérola.