Uma história de amor na Getúlio Vargas

06/08/2017 22:28:27

Flavio Sousa


Amar não é um troço fácil; muitos acreditam que esse tal de amor nem existe. Alguns, como meu amigo e professor Moacir, pensam que, em pleno século XXI, o sentimento não é mais necessário e o prazer está ligado a autossatisfação. Já eu, quando estou com raiva, penso que o amor não existe mesmo, que não há nada dentro do coração — é tudo coisa da nossa cabeça. Entretanto, o sorriso do meu Lírio Branco me faz mudar de ideia e as borboletas voltam ao estômago. Nem estou na presença dela, mas sinto a alma queimar aos pouquinhos; as mãos formigam e a pele anseia por um toque. São esses os efeitos colaterais do amor? Pode ser; esse cálice é poderoso!

Há meses resolvi passear pela praça da Avenida Getúlio Vargas à noite. Gosto daquele lugar. Sempre vou sozinho e imagino quantos amores nasceram em alguns daqueles bancos, embaixo daquelas árvores. Na minha cabeça, os amores que surgem assim, de forma singela, nos bancos da praça, parecem mais fortes e duradouros. Todos os amores que nasceram na Getúlio Vargas são eternos, gosto de pensar assim. (Está lendo isso, pequena? Um dia eternizaremos nosso amor na Getúlio Vargas.) É como se ali fosse o paraíso para dos amantes, onde só quem vive o sentimento é capaz de se fundir com a beleza clássica da arquitetura antiga e a agressividade da cidade.

Ainda era outono quando conheci Amélia e Donizete. Normalmente, a Praça é povoada pelo barulho da juventude. Aqueles dois pareciam completamente deslocados. Imaginem um elegante filme francês, onde um velho casal protagonista participa, em cores alaranjadas, de uma cena retrô, com adolescentes rebeldes ao fundo. A imagem é um pouco triste, mas extremamente poética. Parecem estar espantados com o tempo que se passou (e isso é desesperador e por isso um pouco melancólico), mas ainda assim felizes com a vida vivida até aquele momento. Ela aponta para o céu, como quem procura uma estrela conhecida. De longe, tive a sensação de que ela disse: “A mesma daquele dia”. Um pouco patético, admito, mas igualmente belo pela simplicidade. Ele sorriu, meio perdido — acho que não viu estrela nenhuma, apenas se lembrou de ter avistado o astro algum dia e isso foi agradável.

Passei um bom tempo admirando o casal de velhinhos. Imaginei uma vida ao lado do meu Lírio Branco, colecionando histórias e revisitando lugares, como aqueles dois. Por que será que a gente sempre se sensibiliza com essas coisas? Eis uma das múltiplas facetas do amor: reinventar nossas necessidades e desejos. Imaginei que morreria se não tivesse com minha amada algo parecido. Me lembrei também das circunstâncias que me separam dela e a morte me pareceu uma boa alternativa. No entanto, deixei de lado o exagero da paixão e voltei aos doces pensamentos de uma a vida a dois colorida com flores e muitas aventuras.

                                                                     

Sempre tive notada habilidade de me relacionar com os mais velhos. Não demorou muito e lá estava eu proseando com o casal da Avenida. Não nasceram aqui na província. Ela, brasiliense, ele paulistano. Se conheceram ali, na Getúlio Vargas, por acaso. Donizete era do tipo que hoje em dia chamamos de mochileiro, tinha vindo por conta de uma festividade qualquer. Além disso já conhecia essas bandas de outros carnavais. Amélia, moça de família, visitava parentes que residiam aqui nos Patos, mas morreram há anos; depois disso, não voltou. Naquele outono, era a primeira vez voltaram a cidade onde se apaixonaram. “Está diferente, aqui mudou muito, mas a essência de amor continua, sabe”, contou Amélia com ar de emoção.

Essa história de amor é receada de clichês, mas nem por isso deixa de ser bonita. Quando se conheceram, na Praça da Avenida, não foi nada romântico. Amélia julgou o hoje marido como um maconheiro sem futuro, que não tomava banho. (Longe da esposa, Donizete me disse depois que não tomava banho na época, mas que hoje aprecia uma boa ducha.) Tinha tudo para dar errado: ela, namorada de um estudante de medicina, de família boa, melhor: de família rica e poderosa de Brasília; ele, um pé-rapado, desempregado, andarilho e músico! A mãe de Amélia dizia que “homens que vivem com viola debaixo do braço não valem nada”. É como dizem, não é mesmo, quando é para ser, não há força no mundo capaz de conter essa fúria chamada amor!

No primeiro encontro, Donizete emendou cantadas de pedreiro e deu tudo errado. A moça o julgava um bruto, sem escrúpulos, porco de natureza. Durante aquela visita, muitas coisas aconteceram com eles. Amélia se desentendera com o namorado, ciúmes, mas a realidade é que nunca concebera o sujeito como o amor de sua vida. Sabia que iria amar alguém de verdade e, talvez até para sempre. Usava o “talvez” porque sabia que amar, nem sempre, é estar junto pela eternidade, amar é apenas amar.

Se encontraram novamente na Avenida, desta vez o porco, digo Donizete, estava com uma turma cantando umas modinhas da jovem guarda, curtindo a vida. De longe ela observava tudo com as amiguinhas que riam para os rapazes. O que Amélia não imaginava é que aquele animal interpretasse uma canção linda dos Beatles, And I Love Her! Como era apaixonada por aquela música! Se derreteu toda! Mas não foram os Beatles que uniram os dois. A música foi só a ponte. Amélia pensou que, se ele gostava daquela música, não poderia ser má pessoa. Nem preciso dizer o resto. Os dias daquela semana foram pouco para os dois amantes, que não trocaram um beijo sequer na Getúlio Vargas — o primeiro beijo aconteceu só em Brasília, tempos depois. Foram embora da cidade, com aquela sensação de que nunca mais se encontrariam, nunca mais olhariam as estrelas na Getúlio Vargas, ou ouviriam Beatles. Pensaram ter acabado, mas algo forte vivia dentro deles, algo muito maior.

Num verão ensolarado, no Rio de Janeiro, Donizete decidiu: “Vou atrás de Amélia”. Já fazia meses que tinha conhecido a moça, mas a lembrança dela em sua cabeça, o cheiro do perfume, o cabelo castanho, a voz aveludada, o jeito sem graça de menina tímida, tudo aquilo o incomodava, não sabia o motivo. Partiu sem pensar duas vezes e sem ter a certeza de que encontraria a moça. O que sabia sobre ela era pouco, mas com muita persistência — levou mais ou menos mais dois meses para encontrar Amélia — conseguiu revê-la.

Não foi tão fácil. O casamento já estava marcado, o quase-medico havia subido para o status de noivo. Ficou desesperado, chorou, bebeu, fez bobagem, mas ainda assim queria dizer a moça três palavras: eu te amo! E disse; encontrou a menina, quando estava prestes a desistir de tudo, e abriu o coração. Ela foi receptiva, achou tudo muito estranho, mas algo a fez mudar de ideia, largar tudo! O vestido, a festa, os amigos do noivo, tudo, tudo, deixou tudo por ele! Foi embora, comprou a inimizade da manhã por quase 20 anos. Saíram da cidade, meio que fugidos, e começaram o romance. Sempre tiveram o desejo de voltar para a Getúlio Vargas, mas as rotas do destino sempre sopravam em outra direção.

Viveram um bom tempo na estrada, sem muito dinheiro. Ele fazendo música e ela vendendo artesanato. Passaram pelas maiores feiras e exposições do país. Um dia se cansaram da vida na estrada e se estabilizaram de novo em Brasília. Donizete fez uma grana com shows, abriu uma escola de música e o negócio deu certo. Amélia estudou, prestou concurso e se tornou continua do Banco do Brasil; hoje é aposentada.

No início deste ano, quando planejavam uma nova saga de viagens, disseram que queriam voltar onde tudo começou, na Avenida Getúlio Vargas. O choque foi imenso, disseram ter sentido saudades dos bons tempos, que talvez teria sido uma boa ideia terem residido aqui, mas o fato é que amor deles se tornou especial por aquele lugar, por aquela Avenida.

Me contaram toda essa história maluca com lágrima nos olhos e muitas gargalhadas. Depois foram embora; nunca mais vi aquele casal de novo. Entretanto, fiquei pensando: será que vou planar aqui a minha história de amor? Espero que sim. Que meu Lírio floresça em amor!!!

FIM... 



Flavio Sousa, jornalista do Sistema Clube de Comunicação, escreve esta coluna às segundas. É cronista dos blogs: Jornalismo de Boteco; Literatura Amarga e De Passagem. Também é repórter da rádio Clube AM 770. É autor do livro "Crônicas Devassas", publicado pela Editora Madrepérola.