O lado catastrófico das palestras motivacionais

27/04/2017 10:22:02

Esequias Caetano | [email protected]


Nos últimos 10 anos o Brasil tem visto um crescimento exponencial de um novo tipo de profissional: o palestrante motivacional. Trata-se de uma espécie de indivíduo que geralmente diz ter a fórmula para o sucesso, os dez passos para enriquecer, o segredo da boa convivência e um sem número de outros feitiços capazes de transformar problemas complexos, como fazer um empreendimento realmente ser lucrativo, em coisa pequena, simples de resolver.

É bem fácil reconhecer um palestrante motivacional. Ele está sempre sorrindo, buscando o lado positivo nas piores catástrofes, quase sempre vestido a rigor e transparecendo uma autoconfiança que chega a ser cansativa. Em suas aparições, contam uma versão adaptada dos causos caipiras de antigamente, os cases, com histórias de sucesso capazes de convencer até o mais cético dos trabalhadores/empreendedores de que basta se esforçar para conquistar o sucesso. São histórias lindas que seguem sempre o mesmo roteiro, com uma ou outra adaptação: a jornada do herói, ilustrada na imagem abaixo.

                                              

 

Iludidos pela narrativa, os trabalhadores/ empreendedores saem daquele encontro certos de que conseguirão conquistar tudo o que sempre sonharam. É tanta energia e disposição que muitos mal conseguem dormir esperando pelo dia seguinte para aplicarem o que aprenderam. E, então, chega o dia seguinte, o trabalho e os desafios práticos da rotina. É aí que o “bicho pega”. A vida real é mais difícil do que a do conto de fadas moderno do palestrante motivacional.

A vida real traz desafios como o cansaço de uma rotina exaustiva, a falta de treinamento para resolver problemas práticos do dia a dia, as dificuldades de relacionamento, a inabilidade para regular as emoções, a ausência de sentido em relação ao próprio emprego e uma série de outros obstáculos que geralmente são ignorados pelo palestrante motivacional. A realidade evidencia também as diferenças entre os indivíduos: alguns são mais ansiosos, alguns são mais sensíveis ao cansaço, alguns tem maior dificuldade para prestar atenção, alguns enfrentam problemas mais difíceis fora do trabalho, alguns dormem mal e já chegam cansados... A lista não teria fim. O fato é que a fórmula do “só é preciso esforço e força de vontade”, tão venerada e propagandeada pelo palestrante motivacional, funciona apenas para as pessoas que já se encontram em condições de vida favoráveis, sem grandes fontes de desgaste emocional – uma pequena minoria dos seres humanos.  

José (nome fictício) está sentindo na pele a ineficácia desta receita. Ele ouviu do guru motivacional uma série de frases de efeito que o ensinaram a acreditar que o bom funcionário é aquele que está sempre disposto a fazer mais pela empresa: mais horas extras, mais esforço, mais produtividade, tudo um pouco mais. Porém, passados alguns meses – ou anos – nosso personagem começou a se deparar com os desafios da vida real. Com a crise, suas vendas estão caindo – seus resultados, piorando! Em casa, preocupado com a queda no rendimento, não consegue dormir. Sua cabeça passa a noite trabalhando.

A insônia se repete, e, com o acúmulo das noites em claro, o cansaço ao longo do dia se torna cada vez maior. Os resultados continuam caindo. Como em sua cabeça “o bom funcionário é aquele que sempre vai além”, José redobra seus esforços, e, obviamente, se cansa ainda mais. O ciclo se repete indefinidamente ao longo dos dias, semanas, meses e anos.

Nas palestras motivacionais José não aprendeu que os sintomas que sente são sinais de que sua saúde mental não está em ordem. Ele aprendeu que sentir desânimo e desmotivação é sinal de preguiça, e, ao invés de cuidar destas emoções, ele foge delas como se fugisse de um leão faminto pronto para devorá-lo. E assim nosso personagem leva a vida: fugindo, adoecendo cada vez mais, e, claro, repetindo que está tudo bem – inclusive se for questionado, já que dizer o contrário significa assumir que não é o melhor funcionário, e isso, é insuportável.

Esse processo não acontece com toda pessoa que assiste uma palestra motivacional. Algumas pessoas simplesmente não “absorvem” o que é falado nela, outras são pouco vulneráveis aos sintomas de desgaste, outras possuem habilidades pessoais importantes para a preservação da qualidade de vida e saúde mental, outras sabem filtrar aquilo que é dito ou estão em plenas condições de aplicar a fórmula mágica, e nestes casos, acabam não sendo tão afetadas. É uma pena que a maioria não tem a mesma sorte.



Esequias Caetano é Psicólogo (CRP 04/35023) pelo Centro Universitáro de Patos de Minas - Patos de Minas/ MG, especialista em Terapia Analítico-Comportamental pelo ITCR - Campinas/ SP, com formação em Terapia de Aceitação e Compromisso e Terapia Analítico-Funcional pelo Instituto Continuum - Londrina/ PR. Atende a adultos na Clínica Ello: Núcleo de Psicologia e Ciências do Comportamento (www.ellopsicologia.com.br), em Patos de Minas/ MG. É co-organizador de dois livros sobre Psicologia Clínica, fundador e diretor geral do site Comporte-se: Psicologia e Análise do Comportamento, escreve sobre Comportamento e Cultura para o Clube Notícia e, todas as quartas feiras, fala sobre temas ligados à área para a Rádio Clube AM 770.