Violência Doméstica - Corte o Mal pela Raiz

14/04/2017 09:27:49

Esequias Caetano | [email protected]


O Brasil ocupa o 5º lugar no ranking dos países com maior número de mortes de mulheres.  De acordo com o Mapa da Violência (2015), 50,3% destes assassinatos são cometidos por familiares das vítimas, e dentro deste universo, 33,2% dos óbitos são causados pelos parceiros ou ex-parceiros. 

                                                                  

Situações extremas como estas geralmente acontecem porque os primeiros sinais da violência são tratados como “coisa pequena”, sem importância. As piadas, as reclamações quando a mulher deseja encontrar seus amigos, a “fiscalização” no celular ou no computador da mulher, as críticas à família da mulher, a reclamação em razão do trabalho fora de casa, comentários questionando a inteligência ou a capacidade da mulher e  outros tipos de fala do parceiro que caracterizam o começo do processo são aceitos na relação. Se a própria mulher não aceita, a sua família, seus amigos e frequentemente a polícia insistem para que ela “deixe para lá”, argumentando que “não vale a pena denunciar” ou que “todo homem é assim”. Como efeito, a vítima começa a acreditar que, de fato, aquilo é normal – por mais sofrimento que gere.

Além da sutileza das primeiras agressões – que engana se não a mulher, seus familiares, amigos e conhecidos que a estimulam a aceitar –, existe o que a literatura especializada chama de “lua de mel”, que também confunde bastante. A lua de mel é aquela fase maravilhosa depois da agressão. Nela o agressor parece ter mudado. Além de fazer várias promessas, ele de fato age diferente por tempo o bastante para que o relacionamento pareça ter ficado saudável, agradável e prazeroso. A mulher, já infectada pelo vírus cultural do “deixa para lá”, acaba acreditando que o problema foi mesmo resolvido.  Tudo parece perfeito. Mas o perfil agressivo do homem continua o mesmo. Em pouco tempo a tensão volta a crescer e as agressões recomeçam até um ápice onde a violência cessa temporariamente, o casal entra na “lua de mel” mais uma vez e todo o ciclo se repete por tempo indeterminado.

                                                     

A medida em que a mulher aceita as primeiras agressões – seja em razão do vírus cultural do “deixa pra lá” ou em razão da confusão gerada pela “lua de mel” –, seu parceiro se sente cada vez mais seguro para continuar agindo de modo controlador. Ele aprende não apenas que aquelas atitudes em específico funcionam para conseguir o que deseja, mas principalmente, que ele consegue de fato o que deseja, que ele pode, que ele tem o direito de exigir. A mulher, do outro lado, sente-se cada vez mais impotente, mais frágil, mais indefesa. Essa é uma consequência inevitável do isolamento afetivo que o agressor promove.

A situação permanece assim por um tempo, até que em um dado momento, por motivos diversos, aquele controle sutil já não funciona: a mulher reclama de algo, por exemplo. Como a experiência do homem já o ensinou que ele pode e que consegue o que quer, ele não desiste. Ao contrário disso, parte para outra estratégia – altera o tom de voz, faz ameaças e assim por diante. Naturalmente a mulher que já se encontra fragilizada se assusta com aquilo, e mais uma vez, cede. Seu parceiro aprende então que se as piadas e comentários não funcionarem, basta alterar o tom de voz. Aprende, ainda, que pode insistir e aumentar a intensidade da violência se for necessário.

A relação permanece nesta dinâmica até o momento em que alterar o tom da voz já não tem mais o efeito de antes. Como o homem já aprendeu que pode intensificar a violência, ele segura firme os braços da mulher, “coloca o dedo em sua cara”, sacode... Assustada, ela cede. O ciclo continua assim até o momento em que surge o tapa, o soco, o chute...

Muitas mulheres tem o azar de já começarem um relacionamento com alguém que desde o início apele para formas mais graves de agressão. Geralmente isso acontece quando o homem possui um longo histórico de violência em outros relacionamentos – sejam conjugais, familiares, sociais ou de trabalho. O problema é que ainda que as agressões já comecem mais graves, elas podem continuar piorando até que a morte chegue.

O quanto antes o ciclo for interrompido, melhor. Porém, é muito raro uma mulher conseguir interromper a violência em suas primeiras manifestações. Grande parte delas cresce ouvindo – ou ouve quando busca ajuda – que homens são mesmo mais agressivos, que piadas e comentários humilhantes ou desmoralizantes são naturais e precisam ser aceitos, que é normal o homem não querer que ela tenha contato com amigos e familiares ou tentar controlar suas conversas com as outas pessoas, que não vale a pena lutar... O resultado inevitável disso isso é que elas aprendem a acreditar que precisa ser assim ou que não tem como ser diferente. Então, convido a todos os leitores para contribuírem com a superação desta crença. Violência doméstica começa de forma leve e cresce aos poucos. Não devemos aceitar suas primeiras ocorrências. 



Esequias Caetano é Psicólogo (CRP 04/35023) pelo Centro Universitáro de Patos de Minas - Patos de Minas/ MG, especialista em Terapia Analítico-Comportamental pelo ITCR - Campinas/ SP, com formação em Terapia de Aceitação e Compromisso e Terapia Analítico-Funcional pelo Instituto Continuum - Londrina/ PR. Atende a adultos na Clínica Ello: Núcleo de Psicologia e Ciências do Comportamento (www.ellopsicologia.com.br), em Patos de Minas/ MG. É co-organizador de dois livros sobre Psicologia Clínica, fundador e diretor geral do site Comporte-se: Psicologia e Análise do Comportamento, escreve sobre Comportamento e Cultura para o Clube Notícia e, todas as quartas feiras, fala sobre temas ligados à área para a Rádio Clube AM 770.