O que ouvimos pode influenciar o que somos?

30/03/2017 09:03:12

Esequias Caetano | [email protected]


A maioria das pessoas já deve ter se percebido cantarolando ou se mexendo no ritmo de alguma música, ao menos uma vez. Isso, por si só, evidencia que ela tem algum efeito sobre nós. Um fenômeno ainda mais comum envolvendo a relação entre a música e o comportamento humano é a indução de emoções – tristeza, euforia, felicidade, ansiedade, calma e irritação, para ficar em apenas alguns exemplos. Esse efeito indutor de emoções é tão conhecido que muita gente evita músicas específicas em razão das emoções que produzem e muita gente se acalma quando ouve determinadas canções. O debate, portanto, não é sobre esse tipo de efeito.

                       

A polêmica envolvendo a influência da música sobre o comportamento humano gira especialmente em torno de sua capacidade de produzir modificações de longo prazo, em padrões comportamentais mais estáveis. Por exemplo, a música seria capaz de fazer com que uma pessoa se torne mais agressiva? Ela contribui de alguma forma para que um homem se torne “mais galinha”? Ela exerce influência sobre as expectativas que criamos em relação a alguma coisa – relacionamentos, por exemplo? Note que, aqui, não estou falando de emoções imediatas, e sim, de traços de personalidade.

L. Cuervo falou sobre o tema na palestra “Articulações entre Música, Educação e Neurociências: ideias para o Ensino Superior”, ministrada no Simpósio de Cognição e Artes Musicais, realizado em Brasília no ano de 2011. Ele explicou que a música é entendida pelo cérebro como uma forma de linguagem, que de forma semelhante à fala, envolve diferentes entonações, ritmos, andamentos e contornos melódicos. Disso podemos concluir que sua influência sobre o comportamento humano é equivalente àquela exercida pelas coisas que as pessoas falam, e naturalmente, também àquela exercida pelos outros tipos de linguagem, como a escrita e a simbólica (imagens, cores, gestos etc). E este é o ponto de partida para a análise de hoje.

Os efeitos da linguagem sobre o comportamento humano já estão razoavelmente bem descritos pela Psicologia Comportamental. Resumidamente, ela pode ter um efeito indutor de emoções (brevemente analisado no início do texto), um efeito contextual, um efeito consequenciador e um efeito transformador de função.

O efeito contextual é quase tão óbvio quanto o indutor de emoções. Ele pode ser observado quando as letras ou a melodia da música evocam ações específicas, seja de modo direto ou indireto. A evocação direta é aquela em que a própria letra diz o que deve ser feito pelo ouvinte e o ouvinte faz, como ocorre com a música Desce até o Chão, do cantor DG, que diz claramente para que se desça até o chão e frequentemente quem está dançando, de fato, “desce”:

 “(...) Não, não para não/ Desce até o chão/ Tira minha atenção/ Desce até o chão/ Não para não/ Desce até o chão/ Tira minha atenção/ Desce até o chão”.

A evocação indireta é aquela em que embora a letra não diga o que deve ser feito, ela, a melodia ou as duas em conjunto favorecem alguma atitude em particular, como ocorre com Arerê, de Ivete Sangalo. A música não possui nenhuma instrução clara, mas na maioria das vezes, quem a ouve, começa a saltar ou a se mexer – especialmente no refrão:

 “(...)Arerê, arerê/ Um lobby, um hobby, um love com você/ Ê, ê, arerê/ Um lobby, um hobby, um love com Você”

Note que, de modo semelhante ao efeito indutor de emoções, o efeito contextual favorece atitudes no momento imediato - e não a longo prazo. O ouvinte desce ou salta enquanto ouve a música e não em outra ocasião. Os efeitos capazes de modificar nossos padrões comportamentais mais estáveis são o consequenciador e o transformador de função.

O efeito consequenciador pode ser observado quando a letra “confirma” que alguma atitude do indivíduo foi “legal”, “correta”, “foda”, “cool”, e ele se sente encorajado a repeti-la. É o que ocorre, por exemplo, quando, ao ouvir a música “Sou Foda”, de Munhoz e Mariano, o ouvinte sente que fez bem ao ficar com alguma pessoa casada ou por ter “pegado todas” na festa, e consequentemente, volta a tentar ficar com pessoas casadas ou “pegar todas”.

O efeito transformador de função, porém, talvez seja o mais importante. Ele diz respeito a construção ou transmissão de valores e crenças através das letras e pode ser observado quando o ouvinte constrói ou modifica sua forma de pensar, agir ou sentir diante de algum fenômeno do mundo em razão de ter ouvido a música. É o que ocorre quando a mulher ouve Esse Cara sou Eu, de Roberto Carlos, e constrói ou fortalece a crença de que o homem ideal é como o descrito pela canção; ou, quando, ao ouvir Sozinho, de Caetano Veloso, o amante começa a perceber o distanciamento afetivo da pessoa amada como um sinal de que o amor não é recíproco.  Nos dois casos a letra contribuiu para a construção de crenças sobre fenômenos do mundo e, naturalmente, modificam a forma como o ouvinte se sente diante destes fenômenos. Um cara diferente daquele descrito por Roberto Carlos se torna menos interessante, e os sinais de distanciamento do parceiro, se tornam ainda mais desagradáveis.

Obviamente nenhum dos efeitos descritos acontece apenas por causa da música, e sim, pela confluência de um conjunto maior de circunstâncias às quais cada pessoa é exposta ao longo da vida. Para ilustrar, o homem que tem seu comportamento de “pegar todas” fortalecido pela música “sou foda” certamente já é, em alguma medida, pegador; a mulher que constrói a expectativa de que o homem ideal é o descrito pela música do Roberto Carlos já possui, em alguma medida, a expectativa de encontrar alguém parecido e assim por diante. Cada letra funciona como “uma peça a mais” no quebra cabeças da construção da personalidade humana, e de modo semelhante a um quebra cabeças de fato, a letra sozinha não possui qualquer significado.



Psicólogo, especialista em Psicologia Clínica com Treinamento Intensivo em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech | A Linehan Institute Training Company. Fala sobre emoções, comportamento e cultura.