De carona com o prazer: o ex-mototaxista que faz programa em Patos de Minas

25/08/2018 14:41:29

Flavio Sousa


Era quinta-feira, cinco e meia da tarde. O ponto de ônibus da Avenida Getúlio Vargas, em frente ao antigo Fórum – sentido bairro – estava lotado, mas meu estoque de paciência estava vazio há muito. A histeria dos estudantes, o barulho ensurdecedor dos carros e minha enxaqueca tornavam a permanência naquele lugar insuportável. Só desejava ver a plaquinha cinza do rota 2 da Pássaro Branco se aproximando, mas aquele não era mesmo meu dia. Esperei mais dez minutos e nada do lotação aparecer. Tomei uma resolução: chamar um mototaxista! Na minha carteira havia um cartãozinho de um ponto de mototaxistas; um número fixo e um número de celular. Liguei em ambos e não fui atendido. Irritado, caminhei até o Mercado Municipal e peguei uma moto para ir pra casa. Ironia do destino ou não, o coletivo que esperava parou naquele ponto da Praça Santana no exato momento em que subi na garupa da motocicleta. É incrível como isso sempre acontece comigo! Apesar de tudo, estava feliz, pois logo estaria em casa repousando meus ossos no sofá ou na cama. A corrida saiu mais cara que imaginei: paguei 12 reais. Mal entrei em casa e meu whatsApp acusava uma mensagem, de um número desconhecido. A foto do perfil era dantesca: um membro branco, cabeçudo e cheio de veias. A mensagem dizia o seguinte: “Se vc me ligo busca praser. Agende seu horário não vai se arrepende. Sigilo absoluto atende homens, mulheres e casais”. Talvez fosse um vírus, pensei, mas não; era o número que disquei para pedir um mototaxista. Fiz uma busca na internet e no catálogo e descobri que o ponto em que liguei não existia mais. Como não tinha nada com isso, apaguei a conversa e me esqueci do caso.

Meses depois, num almoço de aniversário, uma amiga comentava com a turma o caso de um mototaxista que, tempos atrás, havia oferecido a ela um programa. A conversa me chamou a atenção e parei pra ouvir o depoimento jocoso da minha chegada, sobre o garoto de aluguel. “Aí o cara chegou em mim, todo sem graça, abaixou a cabeça e falou assim: ‘Dona, se a senhora quiser fazer um programa, ou indicar pra uma amiga da senhora, me avisa, ando precisando de dinheiro. Só as corridas não dá.’”. O constrangimento dele gerou gargalhada na geral. Laurinha, minha amiga, não tem pudores e fala abertamente sobre tudo. Disse que a primeira coisa que conferiu foi o pacote. “Ele não usava aquelas causas tora-bago, mas mesmo assim dava um volume e tanto! É meio tiozão, só que é musculoso, cabeludo e alto. Dá um caldo – e grosso!”, completou com sua risada estridente. Todos se divertiram muito naquele encontro. A história ficou na minha cabeça por meses e decidi investigar. Consegui o contato do gigolô com Laurinha, que ainda guardava o número na bolsa. Era o mesmo que havia ligado naquela quinta-feira. Chamei-o no WhatsApp – a foto do obelisco branco e cabeçudo continuava lá – ele respondeu três dias depois, com uma mensagem parecida com a que havia recebido meses antes. Após vários dias de conversa, combinamos de nos encontrar num botequim no Mercado Municipal – esse lugar me persegue! Deu-me o bolo por duas vezes, na terceira, quando já estava praticamente desistindo da coisa, finalmente ele compareceu. Chegou com quase uma hora de atraso e foi difícil convencê-lo a não me cobrar pela conversa. Para ele, tudo deve gerar lucros e vantagem própria. Parece ser viciado em algum tipo de droga, pois é inquieto e tem olhos avermelhados e hálito de cachaça. Também não aceitou ser fotografado ou gravado; disse que seria “um desrespeito com os clientes”.

Foto: Ilustração - reprodução Google. Autor desconhecido. 

Tony Boy – o Tony com “Y”, ele disse, era assim que queria ser chamado – é mesmo como minha amiga havia descrito: tímido, cabeludo e parrudo. Usava uma camisa xadrez, por cima de uma camisa blusa branca, onde sobravam pelos do peito. Até as mãos dele são peludas. Por uma questão de segurança, me disse Tony Boy, preferia que não lhe descrevesse detalhadamente. “Se alguém desconfiar, fica ruim pra mim, sabe”, disse.

Deixou de ser mototaxista quando a empresa que trabalhava fechou por falta de documentação. Ele não possui os cursos necessários para exercer a profissão. É natural de Brasília, mas as promessas de uma vida fácil o trouxeram pra Patinhos de Minas. Segundo me confidenciou, um empresário forte da cidade, não assumidamente gay, teria se apaixonado perdidamente por ele, durante viagem a Capital Federal. Por não conseguir ficar longe do ser amado, mandou buscá-lo. “Pagou a mudança, buscaram minhas coisas no caminhão da firma. Era bonzinho, mas muito ciumento e chato”, disse Tony Boy.  O gigolô garante que sempre tratou a relação como profissional e, assim que chegou, arrumou outras clientes. O magnata não gostou nada e se irritou. Colocou-o na rua, literalmente. “Fiquei um mês sem ter onde dormi. Eu ficava ali na rodoviária. Aí tomei minhas providências. Não iria me humilhar de jeito nenhum”, contou e deu soco na mesa de plástico do boteco. Em resumo, decidiu ameaçar ricaço e obrigá-lo a dar-lhe uma pensão gorda. Fui numa sexta-feira que saiu para reivindicar seus direitos. Ignorou a família e os filhos do abastado. “Entrei lá e falei: ou me paga ou todo mundo vai fica sabendo que você gosta de dar o r***”, disse entusiasmado. Saiu da casa do empresário, num dos bairros mais nobres de Patos de Minas, com um cheque de 10 mil reais, como garantia. Cobrou 100 mil pra fica de bico fechado.  Ele descontou no dia seguinte e se estabeleceu numa casinha velha no Bairro Lagoinha. Uma semana depois, enquanto se dirigia para o forró do Fubazinho, foi abordado por uma camionete S-10, com placas de Goiânia, e foi levado, por 4 homens, para o meio do mato. Tomou uma surra daquelas. Teve quatro costelas e dois dedos da mão quebrados, além de uma serie de hematomas. Era um recado. “Aquela filho duma quenga quase me matou. Falou que se eu pedisse mais dinheiro ou chegasse perto dele e da família, me matava. Larguei pra lá”, contou. Depois disso, com os 10 mil que tinha, comprou uma moto e começou a fazer as corridas. Como levava uma vida regada a noites na farra e muita bebedeira, logo o dinheiro não deu para se manter. Havia torrado tudo que tinha. Aluguel atrasado e dívidas com traficantes de maconha o reconduziram para a vida bandida. “Comi muita gente nessa cidade. Gente que vive aparecendo na televisão, com dinheiro! Se eu pudesse falar, se eu pudesse falar!”, disse enquanto deu talagada numa mistura típica da nossa região: montilla com Coca-Cola.

Naquele mesmo dia havia atendido uma senhora casada. Não era rica, mas acertou o michê sem reclamar e agendou uma segunda rodada para sexta-feira. O marido é caminhoneiro e se sentia sozinha e necessitada de sexo. Tony cobrou 150 reais, mais o dinheiro transporte, ida e volta. “Eu gosto de sair com as donas de casa. Elas são carinhosas e até oferecem um cafezinho depois da metida”, contou o prostituto. Apesar de levar uma vida complicada, gosta do estilo e não se imagina fazendo outra coisa. Começou a fazer amor por dinheiro ainda adolescente. Desde aquela época, já se destacava pelo tamanho avantajado do tríceps e outros membros. O primeiro cliente foi um professor de 45 anos. “Disse que me pagava 50 reais pra eu mostrar a p*** pra ele. Eu topei. Depois mais 50 pra pegar e chupar, no fim ganhei mais cem pra enfiar no c* dele”, deu uma grossa gargalhada quando percebeu minha cara de constrangimento. Ele fala alto e tive a sensação de que o Mercado Municipal inteiro nos ouvia. Tony garante que é heterossexual. Foi apaixonado por uma mulher muito rica de Brasília, mas que nunca se interessou por ele. De lá pra cá, nunca se envolvei emocionalmente com ninguém. “Ainda amo ela, sabe. Mas já era. É muito bem casada”, disse meio contrariado e irritado por tocar nesse assunto.  

Tony Boy faz o estilo cowboy e machão, tipo Village People. Está encrencado; o marido de uma professora universitária descobriu o caso da esposa com ele. Encontrou-se com o corno recentemente e saíram na porrada. A briga aconteceu num forró tradicional da cidade, conhecido por ser point das coras solteironas do alto high society patense. É de lá que ele retira boa parte de suas clientes. “A maioria é umas mulher feia e com subaqueira, mas sempre consigo umas que pagam bem”. O caso com a professora foi um lance que, segundo o cafussu, não era profissional, apenas diversão. Estavam tendo um caso, embora ele tenha ganhado dela alguns presentinhos, alguns custaram mais de 100 reais, como os sapatos de couro que usava quando nos encontramos. “Nunca pedi nada pra ela, juro. Mas ela me dá e eu aceito. É boa de cama, mas é apaixonada pelo marido. Tá um caco, coitada. O cara sentou a porrada nela, está morando com a mãe e eu vou ter que sumir”, disse.

Pagamos a conta e ele me pediu uma contribuição pela conversa, disse se contentar até com “10 conto”; paguei. Antes de sairmos do botequim, atendeu ao telefone. “É uma cliente; espera aí”. Estava enganado: era a professora. Queria marcar um encontro, uma despedida. O marido concordava em voltar, mas ela não queria recomeçar a vida sem uma despedida digna dos velhos tempos. Ele topou. Se encontrariam em 40 minutos, na casa dela. O marido trabalha o dia todo e não tem horário de almoço. “Hoje vai ter! Depois dessa vou sumir dessa cidade”, disse Tony. Quem é da noite o encontra por aí em qualquer lupanário, principalmente nos puteiros do Planalto. Nos sites de acompanhantes não há cadastros dele. Usa o WhatsApp, mas parece não dominar muito bem o aplicativo. Antes de ir embora, perguntei a ele por que mantinha o número que usava quando era motataxista. “Muita gente liga enganada e eu aproveito pra divulgar o produto”, soltou uma risadinha.

Na semana passada, Tony me enviou uma mensagem, dizendo que estava longe de Patos e que agora estava autorizado a postar a reportagem. O loverboy se instalou em Altamira, no Pará. Foi flagrado pelo marido da professora. A ligação que recebeu quando estávamos juntos era uma arapuca pra pegá-lo no pulo. Tomo uma surra; apanho de três homens, contando com o marido enfurecido. Não pode dar queixa na Polícia nem procurar o hospital. Foi intimado a ir embora. Se ficasse, seria morto. Anoiteceu e não amanheceu. Deu calote gigantesco no comércio e na dona da casinha onde morava no Bairro Nossa Senhora de Fátima. No Pará já tinha conseguido cliente. A última vez que conversamos estava morando numa pensão barata e atendendo uma viúva. “As mulheres daqui são mais duras. Tive que tomar um azulzinho pra dar conta”, me escreveu. Tony Boy não é mais Tony Boy no Pará. Por lá é chamado de Capitão. O nome verdadeiro dele, nunca me contou. Queria retornar a Patos de Minas, mas por enquanto precisava deixar a poeira baixar. O gigolô ainda me fez uma proposta: “Aqui tem um velho rico, que está doido pra fazer um suruba, paga bem. Vem pra cá! Ele vai gostar de você é novinho, vamos faturar demais. Eu pago as passagens”, escreveu. Depois disso, desapareceu. O número que utilizava não consta mais como usuário de WhatsApp. Por onde anda Tony?

FIM.



Flavio Sousa, jornalista do Sistema Clube de Comunicação, escreve esta coluna às segundas. É cronista dos blogs: Jornalismo de Boteco; Literatura Amarga e De Passagem. Também é repórter da rádio Clube AM 770. É autor do livro "Crônicas Devassas", publicado pela Editora Madrepérola.