Ame uma mulher que trai!

01/07/2018 21:57:33

Flavio Sousa


Não se pode dizer que o inverno aqui, em Patinhos de Minas, seja dos mais rigorosos, mas fato é que naquela manhã de junho fazia um frio de rachar. O sol ainda não havia se levantando quando o encontrei, solitário e sem agasalho, esperando o ônibus. O destino dele era o Mercado Municipal; o meu a Rádio Clube de Patos, hoje Rádio Clube 98. É comum encontrar pessoas de mais idade enfrentando o gelo das manhãs sem roupas de inverno, mas naquela ocasião seria difícil suportar sem uma blusinha de frio. Quando a condução finalmente chegou, entramos e havia poucos lugares desocupados. Sentamos ao fundo, um ao lado do outro. Reparei que não demonstrava nenhum pouco de sensibilidade a baixa temperatura. Achei curioso e resolvi puxar assunto, afinal de contas, começar a semana com uma boa conversa com um desconhecido muito me agrada. Contudo, fui surpreendido! Pensava que ouviria respostas clichês sobre o clima, coisas como “hoje não faz frio igual na minha época” e etc. Mas estava completamente enganado! Seu Geraldo, que tem 66 anos, disse que o frio e a solidão fazem parte dele. “Frio e solidão são duas coisas que, com o tempo, de tanto sofrer, a gente se acostuma com eles”, foi o que ele falou, exatamente assim. Confesso que a resposta não me surpreendeu, pois (julgue-me) pensei que fosse mais um desses malucos que falam coisas sem nexo por aí. Quando se arrisca a colher história de estranhos, cruzar com esse tipo é comum. No entanto, seu Geraldo, ou Geraldinho, como gosta de ser chamado, não se enquadrava nessa categoria. Depois de dizer a frase depressiva, emendei, em tom jocoso, que suas palavras eram motivadoras para segunda-feira. Rimos.

Passado alguns minutos de conversa fiada, voltei ao início de nossa prosa e o questionei por que tanta amargura e tristeza. Ele ficou irritado, mas respondeu. “Cê é novo; um dia você vai amar e vai entender”. Estava diante de um mal amado! Geraldinho é aposentado. Trabalhou por anos como porteiro, em uma das empresas mais antigas de Patos de Minas. Soube depois, por intermédio de seus ex-colegas, que era conhecido pela simpatia. “Todo dia a gente chegava aqui pra descarregar o caminhão e ele já vinha rindo. Homem bão de mexer”, contou o caminhoneiro João Paulo, que ainda hoje descarrega na fábrica em que Geraldo prestou serviços por 28 anos. No dia em que o encontrei, pelo menos, não parecia ser um homem feliz. Tinha ares taciturnos e semblante carrancudo. O caminhoneiro também notou que o velho amigo estava mesmo mais abatido, mas desconhecia os motivos. “Ele é vizinho da minha mãe. Sempre que vou por lá, dou uma passada na casa dele. Dá pra ver que mudou, está triste. O chifre dói, né, amigo!”. João Paulo diz entender o velho. Assim como o amigo Casmurro, foi traído e abandonado. Hoje é casado com Ana Paula, diarista de um hospital aqui da província e pai de duas meninas de olhos claros, como os da mãe. “A gente sofre demais, dói ser corno. Eu não tenho vergonha de falar. É a coisa mais triste do mundo, mas tem que superar. Um dia passa. Hoje eu sou feliz, mas eu tive que aceitar que perdi e seguir em frente. A vagabunda lá [refere-se a ex-amásia, com que ficou junto por sete anos] me trocou por outro eu penei, mas seu fico nessa de tentar voltar com ela, tava aí até hoje, largado”. João sofreu com o alcoolismo, o que ele atribui ao fim do relacionamento com a ex.

Naquela manhã, o velho Casmurro não me deu mais atenção e desceu no Mercado Municipal. Não se despediu, não perguntou meu nome, nem nada. Passei vários sem vê-lo. Como sempre pegava o ônibus no mesmo horário, imaginei que mais cedo ou mais tarde, o encontraria novamente. E foi batata! Encontrei-o novamente, ainda antes de o sol nascer, e o retomamos nossa conversa. Ainda era julho, mas não faço a idéia do dia. Depois disso, passamos a nos ver mais vezes e marcamos um café. Construímos uma boa amizade. Em um desses encontros no busão, me disse que contaria toda sua história no café que marcamos para uma manhã de sábado, fria, pra variar, no Mercado Municipal. Segundo ele, “era um mundo véio de trem pra falar” e notadamente o tempo que tínhamos no Rota 2 – linha que cruza a cidade, saindo do Bairro Nossa Senhora de Fátima, até o Distrito Industrial – não seria suficiente. Concordei.

O sábado em que combinamos o café no Mercado finalmente chegou! Estava ansioso pra saber daquela história que me matava de curiosidade. Chegamos bem cedo, mas não para os padrões de Geraldinho; eram 8h30min quando mordi o pão-de-queijo quentinho de um boteco de primeira lá do Mercado. Ele parecia nervoso aquele dia. Não demonstrava estar disposto a me contar nada. Não forcei. Falamos, inicialmente, de coisas sem importância. Meu emprego na Rádio Clube, se o Adamar Gomes era gordo, pois ela achava que a voz dele era de gordo. Ficou surpreso quando disse que o chefe tem físico de um louva-a-deus. Estava quase desistindo da história quando ele finalmente abriu o jogo! Olhou, meio perdido, para as coisa em volta, respirou fundo. “Eu sempre saio cedo por que estou esperando uma pessoa”, não disse exatamente essas palavras, mas me foi impossível recordar do que disse com exatidão. O jeito como ele fala é curioso: não chega a ser matuto, mas emprega, às vezes, expressões típicas de quem cresceu na roça. Disse, logo depois, que “amou demais da conta” uma mulher da vida.

O caso de amor entre o porteiro e a prostitua é antigo, tudo começou em 74, quando Geraldinho tinha 22 anos. Foi num daqueles famosos e luminosos prostíbulos de Patos de Minas que conheceu a bela morena de olhos castanhos a quem ele diz amar e esperar até hoje. Lurdinha, nome de guerra de Márcia Amaral, segundo contou Geraldinho, era conhecida pela beleza paralisante de sua pele e seu jeito trigueiro e sensual. “Não pense que ela era vagabunda, porque não era não! Naquela época gente saia com as meninas bebia com elas, mas o negocinho [acho que ele se referia a sexo] não era fácil de conseguir não”, explicou, defendendo a honra da hoje ex-prostituta. Na noite de natal daquele mesmo ano, os dois saíram juntos, pela primeira vez. Não foi exatamente um programa. O Casmurro insistiu para ter dois dedos de prosa com a pequena, porque queria fazer-lhe uma proposta. “Andei atrás dela a semana inteira. Eu tinha visto ela uma vez lá no Risca Faca e fiquei doido nela. Gamei na hora!”, contou com um sorriso nostálgico no rosto. A moça ficou encantada, prometeu que deixaria a vida fácil e construiria com ele uma família. Eles até tentaram. Moram juntos numa casinha velha lá pelas Bandas da Avenida Brasil – hoje há uma loja moderna e bonita no lugar do casebre.

De início tudo era muito bonito e apaixonante, mas logo as coisas azedaram entre eles. Márcia, contou Geraldo, era uma mulher de gostos seletos e não se contentava com aquela vida pobre sem luxo. “Eu não tinha condição de nada pra ela. E ela tinha muito dinheiro antes de morar comigo. A Zona dinheiro pra ela. Vivia arrumada, bonita, roupas caras, mas quando a gente se casou, ela virou um bagaço, mas eu amei e amo do mesmo jeito”, disse isso e deu um murro na mesa de lata, quase me derramando o café quentinho. Por pouco não me engasgo com o terceiro pão-de-queijo que abocanhava com fome canibal.

Naquela época, Geraldinho trabalhava na roça, passava a maior parte do tempo fora de casa. A saudade e o ciúme – além das constantes reclamações da amásia – fizeram com que conseguisse o emprego de porteiro, onde trabalhou com afinco até aposentadoria. Um conhecido amigo dele foi quem o indicou para o serviço. Como sempre fora responsável e muito dedicado, se encaixou perfeitamente no cargo. As cosias melhoraram, mas para Márcia não era o bastante! A mulher queria mais e mais. Com o passar do tempo, a relação do jovem casal se deteriorou e o amor deu lugar a reclamações constantes e troca de farpas. “A gente brigou demais naquele tempo, Nossa Senhora. Não sei como não saiu uma tragédia, foi Deus que ajudou, viu menino”, contou Geraldinho.

Como já mal se falavam, o Casmurro nem notou a diferença no comportamento da esposa, que segundo ele mesmo contou, ficou cada dia mais distante e fria. O que não percebeu foi como a mulher, antes um bucho, de repente passou a se produzir e dedicar muito tempo à frente do espelho. Numa quinta-feira qualquer, Geraldo chegou em casa e encontrou o lugar vazio; eram aproximadamente 19h. A esposa só apareceu no dia seguinte. “Fez as trouxinhas e foi embora, no outro dia cedo. Disse que iria pra casa da mãe, na Lagoa Formosa”, uma lágrima escorreu pelo roso enrugado e fiquei nitidamente constrangido. “E não voltou mais não”, completou.

Não demorou muito pra descobrir que tudo não passou de uma mentira e que a esposa o deixou para fugir com outro. Nunca soube quem era o cara, mas tinha certeza que era mais rico e bem de vida. “Eu sofri que nem um cachorro. Tomei veneno, mas não tive sorte, né. Acabei não morrendo”, disse, mais um vez, tristonho. No entanto, a esperança renasceu no coração de Geraldinho anos mais tarde, quando Márcia lhe escreveu uma longa e apaixonada carta, afirmando que voltaria.

Em poucas palavras, traçadas em garranchos quase ilegíveis, ela promete voltar, mas sem dizer quando. Geraldo me mostra o papel, que agora está encardido, com olhar de quem mesmo sem forças ainda tem esperanças. Não consegui ler tudo, mas um trecho poético me chamou atenção. “Para o amor, não há tempo ruim; sempre haverá (que Márcia escreveu sem o h) tempo para se amar”. O restante é uma mistura de reclamações do relacionamento que passou a ter com um homem abonado e lembranças dolorosas do antigo amor, mas que “só agora ela enxerga o quanto era feliz e não sabia”. A carta data de 1986. Há exatos 32 anos Geraldinho espera pelo amor de sua vida. Contou-me ainda que vai, todos os dias, bem cedinho, ao mercado comprar pão de queijo, no mesmo local onde estávamos, e que depois segue para a rodoviária e passa boa parte do dia por lá, na esperança de reencontrar a amada, vinda de sabe-se lá de onde. Naquele mesmo sábado, quando nos encontramos, ele seguiu para a rodoviária. Não parecia ter esperança, mas comprou dois pães e levou. “Ela gosta dele quentinho. Se ela vier, vou agradar”, disse de um jeito alheio. A voz soava fina e quase sem forças. Não o acompanhei até a rodoviária. Aquela havia sido a última vez eu veria meu amigo Casmurro.

Algumas semanas mais tarde, soube de João Paulo, o caminhoneiro, que Geraldinho morrera em Uberaba. Lutava contra um câncer de próstata, mas a doença avançou rápido e foi impossível salvá-lo. João Paulo me disse que o velho porteiro tinha ido visitar a irmã mais nova, quem não via há muito anos, mas acabou morrendo por lá. Como não tinha assistência funerária, foi velado e sepultado por lá mesmo. Os amigos de Patos, os poucos ainda vivos, souberam da morte por intermédio do caminhoneiro. No velório, pelo que consta o relato de João Paulo, não mais que 10 pessoas estiveram presentes. Apenas os familiares da irmã caçula. Nenhuma mulher misteriosa surgiu para chorar em seu caixão. “Se ele larga dessa bobagem de esperar essa mulher, poderia estar bem, com uma família, né? Uma pena. Ele foi ficando cada dia mais triste, mais abatido e isolado do mundo. Triste saber que um ser humano passa por isso”, me contou João Paulo, quando nos encontramos no centro, no dia em que sobe da morte de Geraldinho.

Antes de se despedir, João Paulo disse que o velho amigo disse que a melhor coisa que fez da vida foi amar e esperar por Márcia. Acreditava que seria recompensado, mais cedo ou mais tarde, fosse nessa vida ou na outra. “Espero que lá em cima ele tenha paz, né amigão?”, finalizou o caminhoneiro. Foi embora; desde então não vi também.

Quando esse caso me vem à cabeça, sempre me lembro de Nelson Rodrigues. “Não se abandona uma adúltera”. Geraldinho não abandonou, mesmo sendo deixado para trás. Na conversa que tivemos naquele sábado, ele me perguntou se eu ariscaria um palpite para a traição da ex-amásia. Não respondi. Parecia, de fato, ter orgulho de amar aquela mulher que o traiu, mesmo estando em total estado de sofrimento e dor. “Um dia você vai amar e vai entender”, me dizia ele com freqüência. Para ele, o verdadeiro amor era o amor que só se poderia ter por uma mulher adúltera.

“Amar uma mulher que te chifrou é só pra quem ama de verdade”. Seu Geraldinho, 66 anos, morto em 2018, vítima de um câncer de próstata. Mas há quem diga que morreu de amor, que foi tudo por causa de um coração partido!

FIM...



Flavio Sousa, jornalista do Sistema Clube de Comunicação, escreve esta coluna às segundas. É cronista dos blogs: Jornalismo de Boteco; Literatura Amarga e De Passagem. Também é repórter da rádio Clube AM 770. É autor do livro "Crônicas Devassas", publicado pela Editora Madrepérola.