Tudo Tem seu Tempo . Mas e quando a cabeça não para?

18/05/2018 17:29:50

Esequias Caetano


“Tudo tem seu tempo”. Esta é uma frase que eu frequentemente ouvia de meu pai quando era criança. Ele costumava me dizer isso se me via preocupado com alguma coisa, como uma prova difícil no dia seguinte (algo do futuro) ou uma discussão que havia travado com um colega da escola (algo do passado). Estas palavras me lembravam de que não adianta ficar pensando sobre os problemas quando não existe a possibilidade de resolvê-los. Não havia como estudar para a prova depois que eu me deitasse para dormir; não adiantava ficar pensando sobre o que eu poderia ter dito de diferente a meu colega depois que a discussão havia se encerrado. Ao invés de resolver os problemas, ficar pensando neles enquanto fazia outra coisa só gerava mais problemas: eu não dormia e ficava me sentindo mal desnecessariamente.

Depois que cresci e me formei em Psicologia, descobri que o nome científico que damos ao comportamento de ficar pensando sobre os problemas quando não podemos resolvê-los é “ruminação”. Descobri também que a ruminação pode produzir ou agravar uma série de problemas emocionais, como Depressão, Ansiedade e Estresse¹ e, melhor, aprendi algumas coisas que podem ser bastante úteis para lidar com ela.

A primeira coisa que aprendi é que é preciso entender a ruminação. De forma simples, ruminar significa pensar repetidamente sobre algum problema, tentando resolvê-lo em nossa mente. Estamos ruminando quando passamos mais de dois minutos envolvidos em pensamentos sobre uma situação. Essa ruminação pode ou não produzir emoções desagradáveis, mas, em todo caso, costuma nos paralisar ou, ao menos, nos desconectar do que estamos vivendo no aqui-agora. Por exemplo, se estou comendo, me desconecto do sabor da comida; se estou conversando, me desconecto do contato com o outro; se estou descansando, me desconecto da possibilidade de relaxar e assim por diante.

Ruminar costuma produzir uma sensação de que estamos fazendo alguma coisa, ou, ao menos, de que estamos tentando ... (talvez por isso continuamos ruminando...). Porém, fica nisso. São poucas as vezes em que, de fato, se chega a alguma solução através da ruminação. Experimente observar. Quando perceber que está ruminando, se faça a seguinte pergunta: ficar aqui parado, pensando nisso, vai ser útil para resolver o problema? Se não for útil, passe à próxima pergunta: este problema pode ser resolvido (tenho algum controle sobre ele)?

Se for algo que você pode resolver, descreva objetivamente o problema e quais são suas implicações para sua vida. Exemplos: “não consigo me concentrar para estudar, e se eu não entender essa matéria, tirarei uma nota ruim na prova”, “as contas não vão fechar no final do mês, e se eu não fazer alguma coisa, vou ficar devendo”.  

Um segundo passo é definir qual é seu objetivo ao resolver o problema. Nos exemplos anteriores, os objetivos poderiam ser entender a matéria da prova ou pagar todas as contas. Com isso, você tem clareza de onde exatamente quer chegar. A próxima etapa é se sentar, com caneta e papel na mão, e anotar absolutamente tudo o que te vier na cabeça a respeito de como resolver o problema. Não importa o quão absurdo o pensamento pareça. Simplesmente, anote. Apenas depois disso, passe à próxima fase: avalie a eficácia de cada solução encontrada, atribuindo uma nota de 0 (zero) a 100 (cem) para o quão provavelmente efetiva cada uma delas é. Então, teste (aplique) as mais efetivas.

Você pode também pesquisar na internet sobre o que outras pessoas com problemas parecidos já fizeram, você pode buscar por ajuda profissional ou pode se aconselhar com alguém mais experiente. Mas pode ser que, simplesmente, você não tenha como resolver o problema ou, ainda, que naquele momento em particular isso não seja possível. Se for o caso, definitivamente não adiantará ficar pensando nele. Se mesmo após perceber isso você continuar ruminando, experimente uma das estratégias a seguir. 

A primeira possibilidade consiste em observar e descrever mentalmente qualquer atividade que esteja fazendo, como “estou caminhando, um passo, dois passos, três passos.., ”, “estou abrindo meu e-mail, a página está carregando, existem muitos e-mails em minha caixa” e assim por diante. Na segunda estratégia, ao invés de descrever mentalmente o que estiver fazendo, você pode adicionar algo à situação, como brincar com uma mascote, cantar mentalmente uma música, fazer um exercício ou qualquer outra coisa. De modo semelhante à estratégia anterior, você pode observar e descrever a atividade que adicionar. Ambas são formas de focar a mente em algo diferente da ruminação. Teste as duas e descubra com qual se adapta melhor. Pode ser necessário redirecionar a mente repetidas vezes. Isso é normal. 

Se nenhuma delas funcionar para você, se parecerem muito difíceis ou se ficar cansativo utilizá-las, procure ajuda profissional. Existem diversos outros recursos bastante eficazes para lidar com a ruminação, mas a aplicação deles deve ser feita por um profissional da Psicologia.  

MATERIAL CONSULTADO

¹ . Ruscio, A. M., Gentes, E. L., Jones, J. D., Hallion, L. S., Coleman, E. S., & Swendsen, J. (2015). Rumination predicts heightened responding to stressful life events in major depressive disorder and generalized anxiety disorder. Journal of Abnormal Psychology, 124(1), 17-26.
http://dx.doi.org/10.1037/abn0000025

² . Linehan, M. M. (2018). Treinamento de Habilidades em DBT: Manual de Terapia Comportamental Dialética para o Terapeuta. Porto Alegre, Artmed. 



Esequias Caetano é Psicólogo (CRP 04/35023), especialista em Terapia Comportamental (ITCR/ Campinas), com Treinamento Intensivo em Terapia Comportamental Dialética (Behavioral Tech/ Seattle, WA) e formação em Terapia de Aceitação e Compromisso e Terapia Analítica Funcional (Instituto Continuum/ Londrina, PR). Atende a adultos em terapia individual, de casais e família na Clínica Ello: Núcleo de Psicologia e Ciências do Comportamento (www.ellopsicologia.com.br).